Vinho e azeite português podem se beneficiar de acordo Mercosul-UE mas impacto maior será visto a longo prazo
Novo acordo comercial que se inicia em maio oferecerá uma redução gradual de tarifas de exportação
- Lisboa
Maio 25, 2026
O acordo entre Mercosul e União Europeia entra em vigor de maneira provisória a partir desse mês, abrindo as possibilidades para que haja a ampliação da relação comercial entre os blocos que juntos reúnem 718 milhões de pessoas, um PIB de US$ 22 trilhões e 25% da economia global.
O tratado prevê a redução gradual de até 90% das tarifas de exportações entre os blocos, além de estabelecer regras comuns para o comércio de bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios.
Portugal foi uma das principais forças de apoio do acordo e celebrou a sua assinatura na Comissão Europeia no mês de janeiro, após mais de 20 anos de discussões para a aprovação.
A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) afirma que o acordo pode “criar melhores condições para aumentar as exportações portuguesas” e que ele “representa uma oportunidade estratégica de longo prazo que deve ser aproveitada”.

O órgão, porém, afirma que o tratado não atinge os setores de forma homogênea. Produtos como carnes (bovina, suína e aves), arroz e mel são vistos com mais riscos, mas outros como indústria, tecnologia, metalomecânica, materiais de construção e indústria farmacêutica, podem se beneficiar.
Quem mais deve ganhar são produtos agroalimentares, como vinho, azeite, frutas, queijos ou produtos transformados.
“Estamos a falar de produtos com forte diferenciação, muitas vezes associados a indicações geográficas e a um posicionamento de qualidade. Isso permite às empresas portuguesas competir com valor acrescentado e beneficiar da redução de tarifas no mercado do Mercosul”, afirma o administrador da AICEP, Francisco Pinheiro Catalão.
Os setores de azeites e de vinhos, que estão entre os três principais produtos exportados de Portugal para o Mercosul, celebraram a existência do acordo, mas reconhecem que seus benefícios devem ser vistos com cautela.
A reportagem da EntreRios conversou com representantes das áreas para entender suas expectativas para esse momento histórico para os dois blocos.
O azeite é um dos produtos mais exportados de Portugal para o mundo. Em 2025, o país vendeu 257 toneladas do produto, sendo 21,59% para o Mercosul. O Brasil é o terceiro maior comprador do item português no mundo, mas assume a liderança ao se considerar o azeite embalado, com marca e valor acrescentado.
Em março de 2025, o Brasil aboliu as taxas aduaneiras para todas as importações de azeite de oliva virgem extra, o que beneficiou as vendas, já que o país praticamente importa praticamente tudo o que consome. Por conta disso, representantes do setor analisam que o impacto imediato será limitado, mas acreditam que, com os anos, o tratado seja positivo.

“O impacto de um acordo comercial desta natureza é sempre positivo. O Brasil é já o segundo maior mercado importador fora dos países produtores da bacia do mediterrânica e o potencial de crescimento neste mercado é ainda muito grande”, destaca Mariana Matos, secretária-geral da Casa do Azeite.
O Grupo Sovena, que comercializa as marcas Andorinha e Oliveira da Serra, afirma que o Brasil é um mercado prioritário e ocupa um lugar de peso na estratégia global da empresa que exporta 80% de sua produção para mais de 70 mercados.
O CEO, Jorge de Melo, explica que o acordo Mercosul-UE permite à Sovena ser mais competitiva em mercados da América do Sul, especialmente por conta da previsibilidade e redução de fricções no comércio, tarifárias e não tarifárias.
“Nossa expectativa é que este acordo contribua, naturalmente, para a redução de barreiras tarifárias e custos logísticos e, consequentemente, para uma maior eficiência”, destaca.

O executivo aponta que a evolução das vendas e do volume exportado depende ainda de outros fatores como o comportamento do consumidor, a dinâmica de preços da categoria e as condições logísticas e regulatórias.
O setor de vinhos enxerga com otimismo a possibilidade de ampliação das exportações para o Brasil, mas também acredita que esse impacto será mais significativo a longo prazo.
Portugal é o terceiro maior exportador de vinhos para o Brasil (atrás de Chile e Argentina), com 28 milhões de litros comercializados ao ano. Apesar do número expressivo, o consumo ainda é considerado baixo, com apenas 3 litros per capita ao ano (em Portugal o total é de 62 litros).
“Se o Brasil passar para 4 litros per capita estamos a falar em mais de 200 milhões de litros. É um mercado que possui muita margem de crescimento”, analisa Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal, entidade para a promoção internacional do vinho português.
Falcão explica que o acordo prevê que a cota de 27% para vinhos regulares seja reduzida gradualmente ao longo de nove anos, ou seja, uma diminuição de 3% ao ano.

“O acordo é bom, mas o impacto será menor do que o previsto inicialmente. Gostaríamos que a redução fosse mais rápida para estarmos mais competitivos no mercado”, pondera.
O especialista ainda indica que o acordo também abre a porta às importações de vinhos do Mercosul, especialmente do Chile e da Argentina. Para ele, a principal vantagem competitiva para Portugal é a relação de proximidade já existente com o Brasil.
“Além do fato de falarmos a mesma língua, o povo brasileiro também está acostumado ao gosto do vinho português e tem conhecimento sobre as regiões, viajam cada vez mais para Portugal”, exalta.
O executivo ainda ressalta que essa relação de proximidade também fez com que vinícolas portuguesas se instalem no Brasil e que mais produtores do país sulamericano se instalem no país europeu, inclusive com parcerias com enólogos portugueses.
Um dos exemplos dessa parceria é a Global Wines, produtora de vinhos da região do Dão em Portugal e responsável por marcas como Cabriz, Casa de Santar, Encontro, Paço dos Cunhas e Monte da Cal.
Também pertence ao grupo a marca Rio Sol, produzida no Vale do Rio São Francisco, em Petrolina, Pernambuco. Ao todo, a Global Wines produz seis milhões de garrafas ao ano e exporta metade de sua produção para 40 países. O Brasil é o principal importador com 9% do total de vendas.
A empresa tem a intenção de ampliar a internacionalização das suas marcas e acredita que o acordo pode trazer grandes benefícios às relações comerciais dos dois países.
“Somos os parceiros com maior presença no mercado brasileiro, apresentando produtos de qualidade a um preço acessível. Com preços mais competitivos, a expectativa é de aumentar as vendas no mercado”, frisa Miguel Rodrigues, diretor comercial e de marketing da Global Wines.
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