Comportamento

Violência online: desafios perigosos expõem crianças e preocupam autoridades

Campanhas alertam para desafios virais que incentivam violência, automutilação e até crimes entre jovens

Abril 15, 2026

Crianças expostas a telas sem controle podem correr sérios riscos físicos e mentais. Crédito: Freepik

“Se você conseguir matar o gatinho da família e mandar fotos, subirá de nível”. Esse é um dos propósitos de vídeos chocantes exibidos na apresentação da campanha Prevenção da Radicalização Online de Crianças e Jovens, realizada pela Polícia Judiciária (PJ), em janeiro, em Lisboa.

Foram mostrados desafios online feitos a crianças, estimulando-as a cometer atos violentos, como
exemplo dos riscos a que estão expostas ao navegar pelas redes sociais sem o controlo dos responsáveis.

Desafios como o da Baleia Azul (instiga adolescentes a cumprir tarefas perigosas, incluindo automutilação), do Desmaio (ficar sem respirar até desmaiar) ou do Paracetamol (tomar doses excessivas do medicamento em competição) podem parecer apenas brincadeiras digitais, mas já causaram acidentes graves e até mortes.

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Jogos como o Roblox ou plataformas como o TikTok também são apontados como canais de exposição infantil a conteúdos muito violentos e sexualizados.

Campanha Policia Judiciaria sobre violência nas redes. Crédito: divulgação

 

O psicólogo Manuel Coutinho, presidente do Instituto de Apoio à Criança (IAC), alerta: “Em alguns jogos, a morte é premiada e, mesmo no lúdico, introduzem o entendimento pelo qual os valores da vida deixam de fazer parte”.

O especialista percebe que crianças, adolescentes e até jovens “tornam-se cada vez mais adictos”, em idades nas quais ainda há dificuldade em distinguir o mundo imaginário do real”.

A agressividade pode começar em casa, segundo dados da Polícia de Segurança Pública (PSP) referentes ao primeiro semestre de 2025. Mais de 30% dos casos de violência doméstica registrados foram de filhos contra pais — um salto de 27% face aos últimos três anos.

Manuel Coutinho – Psicólogo e Presidente Instituto de Apoio à Criança. Crédito: divulgação

Levantamento da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), em pesquisa sobre filhos que agridem os pais realizada entre 2022 e 2024, também revela um quadro preocupante. Foram registrados 5.654 crimes ou formas de violência, principalmente violência doméstica, sendo que 82% dos casos ocorreram sem denúncia formal e quase metade (48%) das vítimas não apresentou queixa. Ou seja, muitas ocorrências permanecem silenciadas. Beatriz* vive sozinha com o filho de 14 anos, que tem se tornado agressivo e não a respeita. “Não sei o que fazer, tento conversar, mas ele não quer ouvir e grita”, diz.

Como muitas mães, ela puxa para si uma culpa que, possivelmente, tem de ser dividida com o que o filho vê e aprende na internet. “Tenho muita vergonha, afinal sou eu que estou a falhar, fui eu que o eduquei”.
O psicólogo pondera: “Numa época em que os jovens são educados pelos celulares e há violência na sociedade, na família, no namoro e no desrespeito pelos direitos humanos, os pais precisam exercer a autoridade. Porque, quando não o fazem em tempo útil, são os juízes, mais tarde, que terão de o fazer”.

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Casos mais graves de delinquência juvenil espalham-se por todo o país e são investigados pela Polícia Judiciária. “O número crescente de jovens, incluindo menores, envolvidos na preparação ou execução de atos extremistas violentos veio alertar para a necessidade de medidas de prevenção do fenômeno da radicalização de crianças e jovens”, disse Luís Neves, ex-diretor da PJ.

Entre os delitos descritos pelas autoridades, há um aumento significativo de crimes sexuais cometidos por menores, incluindo abuso sexual e partilha de pornografia via redes sociais Discord, WhatsApp e/ou Instagram.

Estudos recentes mostram que mais de 60% dos jovens são expostos involuntariamente a conteúdos de ódio, violência e automutilação online.

Wanderson Castilho, paranaense radicado nos Estados Unidos, especialista digital forense e reconhecido perito em cibercrime, já resolveu mais de 5 mil casos. Ele investiga crimes digitais, e a maioria de seus clientes são pais preocupados que pedem ao especialista para rastrear as movimentações cibernéticas dos filhos.

Wanderson Castilho, especialista brasileiro em cibersegurança e autor de vários livros. Crédito: divulgação

Nas redes, a violência pode vir de todos os lados, alerta ele. “Pornografia, tentativa de evangelização com ideias radicais e incitação a desafios reais são comuns. Depois, tudo é partilhado e aplaudido por comunidades nas redes”, conta.

Castilho compara: “Se nós, adultos, já somos influenciados, imagine os jovens e crianças que passam, em média, 16 horas por dia ligados às redes”.

Para Wanderson, a pandemia piorou o quadro porque os jovens, sem poder socializar ao vivo,
ficaram ainda mais viciados nas redes e sujeitos ao uso da tecnologia manipulada. A regra é simples: quanto mais jovens, maior a probabilidade de desenvolver ansiedade, depressão, déficit de atenção e comportamentos agressivos.

Não é por acaso que os donos das grandes empresas tecnológicas, como Mark Zuckerberg ou Bill Gates, já tornaram público que não deixam os filhos expostos às telas. Eles sabem as graves consequências”, ressalta o especialista.

Literatura censurada

Livro de ex-funcionária da Meta que fala sobre os perigos das redes sociais. Crédito: divulgação

A mais recente polêmica sobre os efeitos nefastos das redes sociais é o livro Gente pouco recomendável – Uma história real sobre poder, ganância e idealismo perdido, escrito por uma ex-funcionária da Meta, Sarah Wynn-Williams, e já censurado.

A autora está proibida de divulgar o livro. Publicado em Portugal este ano, critica a abordagem das plataformas da Meta (Facebook e Instagram) e mostra que as redes podem explorar emocionalmente adolescentes e direcionar conteúdos ou publicidade justamente em momentos de maior fragilidade.

Na Europa, as autoridades discutem a elevação da idade mínima de acesso às redes sociais para 16 anos. Comportamentos mais permissivos, dependência econômica prolongada dos pais, isolamento social e stress familiar, acentuados após a pandemia, têm contribuído para o aumento da violência.

*Beatriz é nome fictício.
Esta reportagem foi publicada originalmente na Revista Entrerios

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