Crônica

Viva a liberdade de beber uma Coca-Cola

Maio 6, 2026

Foto meramente ilustrativa / Gian Tripodoro (Pexels)

“Antes do 25 de Abril, não se podia fazer muita coisa, nem beijar em público, andar de bicicleta, jogar o pó pela janela ou tomar uma Coca-Cola”

Há quem tenha saudade, pois há gente que nutre nostalgia por tudo — até por tratamento de canal sem anestesia —, mas a Lisboa antes do 25 de Abril não era para amadores. Toda vez que a folhinha do calendário de março sai da parede e o novo mês aparece, lembro-me da entrevista que fiz com António Costa Santos sobre o que se podia ou não fazer nos tempos sombrios em Portugal.

Jornalista e escritor, António catalogou as bizarrices da ditadura portuguesa com muito bom humor nas páginas de Antes do 25 de Abril era proibido, um livro que deveria ser leitura obrigatória para os tais nostálgicos dos homens de uniforme — especialmente para aqueles que nunca viveram numa ditadura e andam a suspirar por ela.

A lista é patética e absurda. Não se podia, por exemplo, beijar em público, jogar bola, nem atirar o pó da faxina pela janela — crime cometido pela mãe de António, apanhada em flagrante delito por manter a casa limpa. Casar com uma professora, só com autorização do governo; e também era preciso pagar uma licença ao Estado para comprar um mísero isqueiro.

De todas as proibições, a que mais me fascina era não poder beber Coca-Cola, uma bebida que, todos sabem, é um dos ícones do comunismo soviético — tanto que só se abria a garrafa com a ajuda de uma foice e um martelo. A medida, durante anos, levou os portugueses mais ousados até à fronteira com a Espanha para um subversivo copo bem gelado da camarada Coca.

Divertido, se não fosse trágico. Como é trágica, e nem um pouco divertida, qualquer ditadura.

Pior é que, hoje em dia, há portugueses saudosos da repressão e da caretice, falando com a cara mais dura deste planeta sobre como eram bons os maus tempos, quando tudo era proibido e nada permitido, sem perceber que, numa ditadura, ninguém pode dizer nada, seja na tasca, na fila, na televisão ou mesmo dentro de casa.

Por essas e outras — pela minha liberdade de escrever o que quero e até pela de quem deveria ficar calado e anda por aí a falar besteira — é que, quando a folhinha do calendário avança para o quarto mês, boto um cravo na lapela e abro uma Coca-Cola gelada para brindar o 25 de Abril.

Pois é muito bom ser livre.

Essa crônica foi publicada originalmente na revista EntreRios.

Você pode assinar e receber a publicação no conforto da sua casa, além de ler na íntegra online.