Viver em Portugal está cada vez mais caro
Saiba por que os preços estão elevados e quais as soluções para o problema da habitação
- Lisboa
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Março 22, 2026
Desde 2022, início da guerra entre Rússia e Ucrânia, a Europa vem sofrendo uma pressão inflacionária que combina a crise energética com o aumento dos juros aplicados pelo Banco Central Europeu (BCE).
Portugal tem sido um dos países mais afetados, especialmente em moradia. O Instituto Nacional de Estatística (INE) apontou que o metro quadrado subiu 17,7% entre setembro de 2025 e de 2024. No segundo trimestre de 2025, foram 17,2%, segundo o Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat). Foi o maior salto da União Europeia. Um relatório da Comissão Europeia estima uma outra razão para a crise: os imóveis podem estar supervalorizados no país em 35%, o mais alto índice da zona do euro desde 2024.
As vendas de casas seguem batendo recordes, e os preços para compra e arrendamento não param de subir. O problema é que os salários não acompanhem a tendência, com aumentos anuais entre 3,4% e 7,9% nos últimos dez anos. Em 2026, o salário mínimo chegará a 920 euros, muito abaixo dos países vizinhos e da média dos aluguéis nas maiores cidades.
Na proporção, entre salário e preço pago por moradia, Lisboa é a cidade do continente na qual a habitação tem maior peso. É preciso destinar 116% do salário para pagar por uma casa, à frente de Istambul (102%) e Moscou (78%), segunda e terceira colocadas.
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Especialistas ouvidos pela EntreRios afirmam que a pandemia e a guerra na Ucrânia foram decisivos, mas destacam que o problema já vinha desde 2008. Nuno Leal, co-CEO do Doutor Finanças, fintech e portal de literacia financeira, afirma que, nos anos posteriores à crise do mercado habitacional global, houve uma grande queda na construção e nos licenciamentos, o que criou um déficit estrutural em contraposição à procura por moradia, que só aumentava.
“Houve crescimento do turismo, que desviou imóveis para alojamentos locais, e aumento populacional, impulsionado pela imigração. Falta de incentivos ao arrendamento, burocracia e dificuldades legais tornam esse mercado pouco atrativo”, destaca Leal.

Para Sandra Marques Pereira, professora do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), diante do aumento do turismo, não houve políticas públicas nem mudança na lógica econômica das compras de casas.
“Por ter mais pessoas com capacidade econômica, passa a haver uma financeirização da habitação, que entra nos mercados globais como produto financeiro. Houve crescimento nos alojamentos locais, nos vistos gold, além de facilitação da lei do arrendamento”, explica ela.
Vera Gouveia de Barros, economista e investigadora nas áreas de Economia do Turismo e de Economia da Habitação, destaca o aumento da inflação, que chegou a 8% em 2022 e levou à perda do poder de compra, pois os salários demoram a compensar a disparidade.
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Com a elevação dos juros por parte do BCE, houve dificuldades para quem possuía créditos de habitação. “Combater a inflação era necessário, já que ela penaliza, sobretudo, as pessoas com menores salários, e são elas que, tipicamente, gastam a maior fatia do rendimento em consumo”, afirmou.
Apesar do regresso da inflação a níveis normais, os salários portugueses no contexto europeu ainda são baixos. Segundo Vera, diversos aspectos podem ser somados ao aumento da população residente, como a subida nos custos de construção, materiais e mão de obra. Esses aumentos impactaram especialmente quem estava fora do mercado e comprou imóvel novo.
Comprar ou arrendar ficou mais difícil, e o governo buscou oferecer alternativas aos residentes, como o Apoio Extraordinário à Renda e o Porta 65, para jovens até 35 anos. Recentemente, foi anunciada uma garantia do estado para permitir o financiamento de até 100% para compra de casa própria a quem tenha esse limite de idade, além da isenção sobre o Imposto Municipal sobre as Transmissões Onerosas de Imóveis (IMT) e o Imposto do Selo na compra da primeira habitação.
“O governo tem anunciado medidas para aumentar a oferta e tornar o mercado mais acessível, mas os resultados são lentos. Temos assistido a uma forte procura por transferências de crédito, motivada pelo aumento das taxas de juro. Embora a procura esteja mais voltada à compra de habitação, o principal obstáculo é a falta de oferta”, destaca Leal.
Especialistas afirmam que políticas como a isenção do IMT para jovens são positivas, mas também podem gerar pressões sobre os preços. “São medidas que precisam ser monitoradas, já que os subsídios podem contribuir para o aumento das rendas e os apoios às aquisições elevarem os preços na compra às alturas”, alerta Sandra.
Existem soluções? De acordo com a professora do ISCTE, elas podem passar por aumento significativo das ofertas e a manutenção de subsídios sem que isso impacte em futuros crescimentos de renda e algum tipo de regulação do mercado. Sobre o último ponto, ela faz um alerta. “Pode haver algum tipo de restrição à renda, mas com cuidado e critérios específicos, porque sabemos que esse congelamento cego pode ter efeitos contraproducentes grandes. O importante é calibrar essas medidas e perceber quais são os seus impactos ao longo do tempo”, destaca ela.

Para Leal, o principal é aumentar a oferta, com atração de investimento e fomento à construção a preços acessíveis. “Algumas medidas apresentadas pelo Governo vão nesse sentido, mas exigem tempo para produzir efeitos. É crucial garantir estabilidade e previsibilidade fiscal e regulatória, evitando mudanças frequentes que afastem investidores”, explica ele.
Vera reforça que não se deve olhar apenas para as rendas, mas também incluir atenção ao direito à habitação. Ela elogia uma medida recente que restringiu a isenção do IMT para os não-residentes, privilegiando os moradores. “Defendo o aumento da oferta pública como instrumento regulador. Mas isso leva tempo”, ressalta. Muitos aspectos, segundo ela, precisam ser estudados e analisados no mercado da habitação.
“A ausência de dados resulta de um profundo desconhecimento sobre o funcionamento do mercado da habitação. É preciso estabelecer um sistema de informação que permita a devida monitorização e a realização de um diagnóstico completo”, finaliza.
Como calcular as despesas e custos de vida
Com a intenção de ajudar as famílias a lidar com os altos custos de vida, a Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco) lançou um guia prático que ensina a fazer um orçamento doméstico detalhado, registrar receitas e despesas, definir tetos mensais e avaliar custos.
Ao final, os consumidores decidirão onde cortar. Simuladores e calculadoras online também ajudam a prever os gastos. A Numbeo ou a Expatistan, por exemplo, são bases de dados colaborativas com informações sobre cidades em todo o mundo e permite comparar o custo de vida. A calculadora de custo de vida da Rádio
Renascença faz as contas com base em despesas básicas como água, energia, gás, comida e comunicações, e dá uma noção real de quanto custa viver hoje em Portugal.
Brasileiros vão embora devido ao alto custo de vida
Os custos para arrendar ou comprar casa afetam de forma significativa os brasileiros. São frequentes os relatos de pessoas que têm deixado o país devido aos desafios para comprar ou alugar. Foi o caso da designer Mariana Lima, com o marido e o filho. Depois de 12 anos em Lisboa, a família voltou para Recife em 2025. ““Passei mais de um ano procurando onde morar em Lisboa.
Quando achávamos, eram lugares que estavam caindo aos pedaços”, afirma Mariana. O apartamento onde vive no Brasil oferece conforto e segurança por um preço acessível.
A confeiteira Maria Eduarda Gimenez reuniu a família — marido e três filhos —, que decidiu voltar a viver em São Paulo. O aumento dos custos e a falta de uma rede de apoio prejudicaram a qualidade de vida. Ela chegou a pagar, em Sintra, o mesmo valor de quando morou próximo à Avenida da Liberdade, zona mais nobre de Lisboa. “Procurei um apartamento mais barato, mas só achava longe dos centros.
A locomoção era difícil pela falta de um carro. São coisas que vão cansando a gente”, explica.