Você gosta mais da sardinha ou da latinha?
Como um peixe pequenino e sua embalagem tornaram-se símbolos de Portugal? Durante muito tempo, a sardinha foi um importante elemento da economia lusa e atualmente consolida-se como souvenir, adorado pelos turistas que visitam o país
- Lisboa
Julho 21, 2025
Quando a embalagem de um alimento compete em fama com o próprio conteúdo para o qual foi criada, o que acontece? Sucesso em dose dupla. Este é o caso das latinhas de sardinha em conserva, um dos produtos mais tradicionais de Portugal.
Esse peixe marinho da família dos clupeídos, pequenino e prateado, vai para muito além do status de alimento, seja no consumo do produto fresco ou nas latas de conserva que viraram souvenir. As sardinhas já foram um importante ativo de Portugal, especialmente na primeira metade do século 20.

Umas das marcas responsáveis por tornar as latinhas objeto de desejo é O Mundo Fantástico das Sardinhas Portuguesas, com 21 lojas em Portugal e uma na Times Square, em Nova York. Com inspiração no mundo circense, as lojas chamam a atenção por seu vermelho vivo e elementos cênicos como rodas gigantes e carrosséis.
“Assim como o circo, a sardinha é nobre e popular. Foi desde sempre um produto básico na alimentação dos portugueses e é difícil encontrar alguém que não as consuma”, diz Sónia Felgueiras, diretora de marketing e de comunicação cultural da marca.
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Para além da cenografia, há o cuidado com o design das latinhas. Entre as que fazem mais sucesso estão as que imitam uma barra de ouro e contém o pó do metal em seu interior. “A sardinha é considerada um tesouro”, diz ela para justificar a criação.
Outro modelo com muita procura é o que estampa um ano impresso, com referência a uma celebridade ou a um fato importante. “A ideia surgiu de um cliente, a partir da latinha que trazia a data da fundação da empresa fundadora, Comur. Ele comentou que, por pouco, não era o mesmo ano dele. Decidimos criar a campanha, e tem sido um sucesso”, diz Sónia.

O esmero nos desenhos vem de longe. Desde que surgiu o processo de conserva em latas, no fim do século 19, a identidade visual foi importante para o sucesso do produto português.
“Se no mar não existem fronteiras, por que dizemos que a sardinha é portuguesa? Por que atribuímos esta nacionalidade quando estamos a falar de um recurso natural de diferentes espaços da costa, como Espanha e França, e não só em Portugal?”, provoca o historiador Francisco Henriques, curador da exposição O Milagre da Sardinha, no Padrão dos Descobrimentos, em cartaz até 30 de dezembro. Ele responde com história.
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Desde a época dos romanos, há 2 mil anos, há registros do uso da sardinha na alimentação, como os “resquícios arqueológicos em ânforas encontradas na região de Lisboa que levavam o garum, a pasta de peixe muito consumida desde a antiguidade”.
Ao longo dos séculos, o peixe fez parte da dieta dos portugueses, especialmente na forma natural. Ganha destaque nas Festas dos Santos Populares, em junho, quando é servida assada no pão. “Havia grande movimentação em locais como o Cais da Ribeira, onde mulheres, principalmente, comercializavam e trabalhavam no processo de salga do peixe”.

Com a industrialização e produção das conservas e a farta oferta do peixe, em contraponto com o escasseamento na França, Portugal ganhou protagonismo na indústria conserveira entre os séculos 19 e 20.
“O país tornou-se líder nessa indústria e nas exportações. Um dos diferenciais era aliar as conservas à produção artesanal e feminina, com a propaganda de que isso dava mais qualidade ao produto”, conclui o historiador.
No contexto das guerras, especialmente da segunda, o produto virou símbolo de neutralidade. “As sardinhas portuguesas alimentavam tropas dos dois lados”, relembra o historiador. Outra curiosidade é que, no início, a indústria conserveira era voltada para um mercado elitizado, com foco nas exportações para Estados Unidos e França.
“Isso está refletido nos rótulos que estão na exposição e em fotos, como a que mostra um anúncio da marca Marie-Elisabeth em um ônibus em Londres”. Aliás, desde o século 19, os rótulos tornaram-se uma atração, com artistas esmerando-se em dar beleza e significado às latas.
Um concurso de desenhos, desde 2013, já mobilizou mais de 40 mil artistas, ávidos por criar as suas versões. Nomes como Joana Vasconcelos também se inspiram no pequeno peixe. É o caso da obra Surf, uma das atrações da exposição.
Para Henriques, o “milagre da sardinha” é a ideia de que o peixe é acessível a todos e apropriado de formas distintas. “A imaginação não tem limites, e de fato é um milagre um peixe frágil, precioso, suscitar tão diferentes usos na cultura ao longo de tanto tempo. Essa é a nossa concepção do milagre”.
Museu de Portimão
A sardinha é abundante em toda a costa portuguesa e a pesca se estende de Norte a Sul, mas alguns centros tornaram-se profícuos na indústria conserveira. É o caso de Portimão, entre Lagos e Olhão, no Algarve.
Antes do turismo, o principal ponto de sustento da região, a cidade foi um dos centros piscatórios e conserveiros de Portugal entre os séculos 18 e 20.

Para marcar a memória, o poder público local criou o Museu de Portimão dedicado à sardinha e à cultura em torno dela. Curiosidades como as fases do “cheio” – descabeçar, engrelhar, cozer, secar, azeitar e verificar – e do “vazio” – litografar, imprimir, cortar e encaixotar – revelam detalhes da indústria que foi, durante muitos anos, a base da economia local.
Um dos pontos altos do museu é a própria arquitetura, já que a estrutura foi montada dentro de uma antiga fábrica, como direito à reprodução do movimento da chegada das sardinhas diretamente dos barcos ao centro de processamento.
Para quem quer saber mais sobre a indústria conserveira da sardinha, é um lugar indispensável.