Comportamento

Você pesquisa seus sintomas no Google? Cuidado, você pode ter Cybercondria

O que começa como uma busca inocente na internet pode acabar em um mar de diagnósticos possíveis e angústia crescente

Março 22, 2026

Você pesquisa seus sintomas no Google? Cuidado, você pode ter Cybercondria. Crédito: Freepik
Você pesquisa seus sintomas no Google? Cuidado, você pode ter Cybercondria. Crédito: Freepik

Ontem fui ao médico e ele me mandou fazer alguns exames cujos resultados sairão em um mês. Socorro! Não consigo esperar. Não saber se posso ter “algo de errado” está me consumindo por dentro. Talvez o Google, o ChatGPT ou o Twitter possam me ajudar.

Essa história poderia ser a de qualquer pessoa, inclusive sua. É muito comum quando nos deparamos com linguagem médica técnica incompreensível. O que começa como uma busca inocente na internet pode acabar em um mar de diagnósticos possíveis e angústia crescente.

A procura repetida por informações sobre saúde na internet, que dispara a ansiedade em vez de tranquilizar, é chamada de cybercondria, a perseguição compulsiva por informações sobre saúde no universo digital.

Quanto mais buscamos, mais ansiedade sentimos; e, quanto mais ansiedade, mais buscamos. É um círculo vicioso que pode até agravar problemas de saúde já existentes e impactar a vida cotidiana. Assim, a obsessão por verificar sintomas pode levar a pessoa a negligenciar trabalho, estudos ou as relações pessoais.

A vida cotidiana perde prioridade diante da busca exagerada por informações. O termo apareceu em artigos jornalísticos no fim dos anos 1990, quando se falava com tom alarmista sobre os riscos da internet.

Um ponto de inflexão ocorreu em2009, quando os pesquisadores da Microsoft Ryen White e Eric Horvitz demonstraram que as pesquisas sobre saúde poderiam intensificar as preocupações pessoais e incentivar o autodiagnóstico. Desde então, a investigação científica começou a levar este fenômeno a sério.

A pandemia da Covid-19, por sua vez, deu um grande impulso à cybercondria. A incerteza, o bombardeio de informações e o uso intensivo da internet foram o terreno ideal para que ela crescesse. O que a Organização Mundial da Saúde (OMS) chamou de “infodemia” — um excesso de informação, parte confiável e parte não, que dificulta encontrar fontes seguras quando necessário — disparou a ansiedade, enfraqueceu a confiança nas instituições e favoreceu comportamentos como automedicação, recusa de vacinas ou compras compulsivas por pânico.

Hoje, milhões de pessoas recorrem à internet para entender seus sintomas ou o que acreditam ter, especialmente os jovens. O problema é que nem sempre distinguem entre o que é informação confiável e o que é enganoso. Na era digital, o pensamento crítico é tão necessário quanto qualquer medicamento para aprender a navegar com segurança neste oceano de informações.

Fatores que alimentam a cybercondria

  • Intolerância à incerteza. Quem não suporta “não saber” procura repetidamente até imaginar o pior cenário. Esse pensamento descontrolado, em que imperam a ansiedade e o medo, está relacionado à cybercondria e também ao transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
  • Dificuldade em distinguir fontes confiáveis. Nem sempre é fácil reconhecer quais informações são científicas (verificadas) e quais provêm de influenciadores ou produtos milagrosos, de veracidade duvidosa. Quando somos incapazes de identificar a credibilidade das informações online, mas desenvolvemos dependência delas, ocorre angústia psicológica, favorecendo a cibercondria.
  • O poder do algoritmo. Os mecanismos de busca priorizam resultados chamativos e nem sempre equilibrados: digitar “dor de cabeça” pode acabar gerando resultados como “tumor cerebral” em questão de segundos, exagerando a gravidade do problema e aumentando a preocupação de quem pesquisa.
  • Então, a internet é o inimigo? Não exatamente. Mas é fundamental entender que a rede não tem todas as respostas em matéria de saúde. Recorrer ao Dr. Google para se autodiagnosticar pode aumentar a ansiedade e favorecer a cybercondria

Diretrizes para aprender a navegar de forma crítica:

  1. Confie em fontes oficiais e profissionais de saúde. Desconfie de promessas milagrosas ou informações sem referências. Lembre-se de que os algoritmos priorizam o que é chamativo, não necessariamente o que é verdadeiro.
  2. Use a internet como complemento, nunca como substituto da consulta médica.

Perguntas para avaliar criticamente as informações:

  1. Quando esta notícia foi revisada pela última vez? Está atualizada? Este site, rede social, blog ou artigo quer me vender algo?
  2. Qual instituição, entidade ou pessoa publica isso?
  3. É uma fonte reconhecida?
  4. É apoiado por estudos ou baseado em evidências científicas?

Este artigo foi publicado originalmente no The Conversation e republicado aqui sob licença Creative Commons.