Você pode dormir em um hotel que já pertenceu à realeza portuguesa no coração do Dão
Hotel une patrimônio, gastronomia, vinhos e tradições numa das vilas mais emblemáticas da região do Dão
- Porto
Junho 16, 2026
Há lugares onde a história não está apenas nos livros. Em Santar, pequena vila do concelho de Nelas, no coração da região demarcada do Dão, ela surge nas fachadas de granito, nos jardins murados, nas vinhas e nas antigas casas senhoriais que atravessaram séculos. É também ali que está instalado o Valverde Santar Hotel & Spa, um boutique hotel de cinco estrelas que ocupa a histórica Casa das Fidalgas, propriedade que chegou a integrar o património da família real de Bragança.
A poucos quilômetros de Viseu, Santar é uma daquelas localidades onde o tempo parece correr de forma diferente. Com pouco mais de mil habitantes, a vila acumula séculos de história e conserva um patrimônio arquitetônico raro, resultado da presença de famílias nobres que ali se estabeleceram ao longo dos séculos.
O hotel nasce precisamente dessa herança. A Casa das Fidalgas foi construída no século XVII por Domingos de Sampaio do Amaral para a filha, Joana de Sampaio, que viria a fundar, juntamente com o marido João de Almeida Castelo Branco, o morgado de Santar. Mais tarde, a propriedade passou para a família real de Bragança, tornando-se parte de uma história que se cruza com a da própria vila.
Uma viagem pela história de Portugal
A história de Santar remonta muito antes da construção da casa senhorial. Há registos de ocupação humana na região desde o Neolítico, há cerca de cinco mil anos. Por estas terras passaram iberos, celtas, romanos e visigodos, deixando marcas que ajudaram a moldar a identidade local.
Ao longo dos séculos, Santar tornou-se um importante centro agrícola e vitivinícola. Durante a primeira metade do século XVII, a vila exportava vinho e milho para o Brasil através do porto da Figueira da Foz. A atividade vinícola atravessou gerações e ajudou a construir a reputação do Dão, hoje uma das mais prestigiadas regiões produtoras de vinho de Portugal.

O desenvolvimento económico trouxe também influência política. Famílias como os Cunha, os Condes de Santar e Magalhães, os Novais e os Ibérico Nogueira deixaram marcas profundas na vida social da vila, promovendo iniciativas de assistência à população, instituições de solidariedade e projetos culturais que ainda hoje fazem parte da identidade local.
De casa senhorial a hotel de luxo
A transformação da Casa das Fidalgas em hotel levou cerca de quatro anos e procurou preservar a essência histórica do edifício.

Tetos trabalhados, paredes de granito, mobiliário de época, pinturas restauradas e objetos antigos convivem com uma proposta contemporânea de hospitalidade. Os 21 quartos e suítes distribuem-se por diferentes espaços da propriedade e procuram equilibrar conforto moderno e patrimônio histórico.
No exterior, os jardins históricos envolvem a propriedade, oferecendo vistas para as vinhas e para a paisagem característica do Dão. Há ainda uma piscina exterior em granito, spa instalado na antiga adega e uma pequena capela, elemento comum nas grandes propriedades senhoriais portuguesas.

A gastronomia também ocupa lugar central na experiência. No restaurante Sítio Santar, a cozinha privilegia produtos da região e ingredientes provenientes da própria horta do hotel.
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O luxo da simplicidade
Para além de somente oferecer uma estadia confortável, o hotel procura criar uma ligação com o território onde está inserido. Segundo a brasileira Graziela Vieira da Rocha, COO do Valverde Santar, essa relação passa por valorizar aquilo que o Dão tem de mais autêntico.
“O hotel traz exatamente essa gastronomia geográfica, que é exatamente para buscar o que tem de melhor em cada espaço e região”, afirma.
Para Graziela, a crescente procura por experiências diferenciadas está associada a um conceito de exclusividade que não necessariamente significa ostentação.
“Hoje em dia as pessoas procuram muito a exclusividade, mas quando a gente fala exclusividade, não significa ser luxo e sim na simplicidade”, resume.
Uma vila onde os jardins uniram famílias
A ligação entre o hotel e a comunidade local ganha ainda mais significado quando observada à luz do projeto Santar Vila Jardim, uma iniciativa que transformou a vila numa referência nacional de valorização do patrimônio paisagístico.
Criado por famílias históricas da região, o projeto nasceu de uma ideia simples: derrubar muros que separavam propriedades privadas e conectar jardins antes inacessíveis ao público.

O objetivo era transformar Santar num grande jardim visitável, preservando simultaneamente a história, a paisagem e a identidade da vila.
O percurso reúne diferentes espaços, entre eles os jardins da Casa dos Condes de Santar e Magalhães, da Casa Ibérico Nogueira, da Casa das Fidalgas — onde hoje funciona o Valverde Santar Hotel & Spa —, da Casa de Santar, do Paço dos Cunhas e da Casa de Almeida.
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Ao longo do trajeto, os visitantes encontram jardins formais, pomares, vinhas, hortas e zonas arborizadas que refletem diferentes momentos da história da vila.
Essa dimensão comunitária continua presente em Santar e ajuda a explicar o ambiente acolhedor que caracteriza a vila. Num território marcado por relações familiares profundas e por uma forte ligação à terra, o turismo surge como extensão natural da própria identidade local.
Passear pelas ruas empedradas da vila é percorrer séculos de história portuguesa. Casas nobres, solares, igrejas, vinhas e jardins convivem num conjunto arquitetônico raro que faz de Santar uma das localidades mais distintas das Beiras.
flavio@revistaentrerios.pt