No campo, a polinização é um pacto silencioso entre flores e insetos. Nada explode de um dia para o outro — o pólen que viaja, a abelha que insiste, a seiva que volta a correr — até que, na primavera, a paisagem inteira parece acordar. A economia portuguesa, após meses de inverno longo, mostra sinais parecidos de vida.
Os números confirmam que, ano após ano, o país passa por um degelo associado à estação. Em 2024, o turismo — setor que alimenta cafés, hotéis e cozinhas — contribuiu com cerca de €34 bilhões para a economia portuguesa, o equivalente a quase 12% do Produto Interno Bruto, segundo a mais recente Conta Satélite do Turismo do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Apesar de o seu peso no crescimento total ter abrandado em comparação com anos anteriores, o setor manteve níveis robustos de consumo e valor acrescentado, com receitas e gasto turístico mantendo-se elevados e estáveis na estrutura da economia lusa.
No coração do Porto, Mirna Gomes, pernambucana e chef do restaurante Mito, percebe os sinais do degelo antes das estatísticas. Primeiro, mais mesas ocupadas num dia que costuma ser de baixo movimento. Depois, turistas perguntando se a esplanada já estava aberta. Na última semana de março, ela encomenda mais caixas de legumes frescos.
“Aproveitamos a exuberância dos ingredientes da estação para deixar a comida mais leve e colorida. Entram mais saladas, crudos de peixe e acompanhamentos mais frescos”, diz, com a empolgação de quem vê o ciclo acelerar novamente.

Das muitas geografias do Brasil às cozinhas do Porto, o caminho de Mirna Gomes. Crédito: Reprodução/Instagram @mirnap_gomes
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O movimento nos números acompanha a sensação: em 2024, estimou-se que Portugal recebeu cerca de 29 milhões de chegadas de turistas não residentes, com 88,3 milhões de diárias contabilizadas em meios de alojamento turístico, um crescimento significativo face aos anos anteriores, segundo o INE. Esse ímpeto estatístico está traduzido na presença de turistas nas ruas estreitas, nos quartos ocupados e nos menus adaptados às estações.
A algumas ruas dali, no bairro do Marquês, Letícia Oliveira, paulista recém-chegada ao Porto, segura o seu primeiro contrato de trabalho formal, numa altura em que os dados do emprego também caminham para um panorama mais positivo.
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Segundo o INE, a taxa de desemprego em Portugal caiu para cerca de 6% em 2025, o nível mais baixo desde 2011, e a população empregada continua a aumentar. No lava-jato onde trabalha, o dono decidiu contratar mais mãos agora que a chuva começa a rarear.
O ciclo repete-se a centenas de quilômetros dali. No Alvarge, o chef Mailson da Silva, da Quinta dos Santos, prepara a cozinha para a mudança de estação. A casa mantém uma equipe base ao longo do ano, mas na primavera começa a reforçar a brigada com cozinheiros e auxiliares para dar conta da produção.

Chef Mailson Silva. Crédito: Reprodução/Instagram
Na carta, o calendário também dita o ritmo: o menu de inverno vem com pratos mais substanciais, como borrego assado e purês. Depois entra o de primavera e verão, com carnes grelhadas, saladas, crudos e mariscos.
Como na polinização, nada floresce sozinho. A primavera econômica portuguesa espalha-se porque há quem arrisque abrir a porta mais cedo, preparar mais quartos, ligar as mangueiras do lava-jato ou plantar novas ervas na horta. O pólen econômico circula discreto, insistente, até que, de repente, as estatísticas e as ruas pareçam outra vez cheias.
flavio@revistaentrerios.pt

Flávio Oliveira