Ainda na infância, por volta dos oito anos, Giovanna Tavares percorria as ruas de Volta Redonda, no interior do Rio de Janeiro, com um isopor nas mãos, vendendo os salgadinhos feitos pela mãe. Não que precisasse, mas por divertimento. Mais tarde, convenceu a avó a abrir um bar, onde passou a vender balas e doces.
O espírito inquieto e criativo daquela criança hoje se traduz em algo muito maior: ela é a mente por trás da T love T, a primeira marca de lingerie portuguesa desenhada especialmente para mulheres trans, e da Giovanna Tavares skin, uma linha de cosméticos para hidratação e rejuvenescimento pensada para peles negras.
Giovanna nasceu com nome masculino e iniciou sua transição de gênero aos 15 anos. Com 17, fez cursos e tornou-se cabeleireira e maquiadora. “Sempre gostei de beleza, de transformar as pessoas.” Mas o preconceito e a falta de oportunidades no Brasil a levaram a tentar a sorte na Itália.
Da venda de salgados ao empreendedorismo em Portugal
“Eu estava disposta a me prostituir, embora nunca tivesse feito isso. Era um misto de medo e novidade. Fui presa três vezes por não ter documentos”, relembra. Ela fez formação para cabeleireira e trabalhou no salão de uma prima. Após dois anos, decidiu recomeçar em Portugal, onde ia de casa em casa para cuidar de cabelos e fazer maquiagem. Sua história de sucesso como empresária iniciou quando abriu um salão na Margem Sul e, depois, outro em Lisboa.

Marca Giovanna Tavares skin. Crédito: Divulgação
“Por ser trans, é mais difícil encontrar alguém que te empregue. Então, empreender foi a alternativa à prostituição. Precisei criar meus próprios caminhos”, diz. Ao produzir conteúdos sobre maquiagem nas redes sociais, viu uma oportunidade de negócios, e assim nasceu o negócio que leva seu nome para produtos de beleza. “Eu sou maquiadora e conheço muitas peles. Quis criar algo prático e eficiente, que tratasse manchas, rugas e linhas finas de uma vez só. Procurei uma fábrica e começamos a desenvolver”. O carro-chefe é um sérum 5 em 1, que ela chama de “bomba de autoestima”. Hoje, a linha tem seis itens e é comercializada em Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique e Luxemburgo.
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Mas foi com a T Love T que Giovanna deu seu passo mais ousado — e com reconhecimento internacional. “Eu procurava uma lingerie que me servisse bem, mas tudo era muito feio, desconfortável, nada pensado para nós”. Com uma amiga modelista, começou a projetar soutiens, calcinhas, biquínis e maiôs. A primeira peça desenvolvida foi uma calcinha feita de neoprene, o mesmo tecido usado em roupas de mergulho, que oferece sustentação e conforto. “Testamos quatro modelos até chegar ao resultado perfeito”.

Marca T Love T. Crédito: Divulgação
Em pouco mais de um ano, a empresa conquistou oito troféus, incluindo duas categorias no Cannes Lions 2023, uma das maiores premiações mundiais de publicidade nas categorias PR e Brand Experience & Activation. “A T love T não é só uma marca. É um movimento”, afirma a empreendedora.
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Com 100 mil seguidores em sua página pessoal, Giovanna não se limita a vender produtos. Ela usa sua voz para amplificar causas e debater desigualdades e polêmicas. “Amigos dizem que eu deveria entrar na política. Quem sabe?”, avalia. Giovanna construiu um modelo de empreendedorismo inclusivo, onde cada criação é pensada para gerar autoestima, conforto e representatividade: “Vender é maravilhoso, mas não é só isso. O que importa é gerar impacto e fazer com que as pessoas se sintam vistas e acolhidas”.
fernanda@revistaentrerios.pt
Esta matéria foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Faça a sua assinatura para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa.
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Fernanda Baldioti