Portugal possui apenas 0,8 profissionais de cuidados a cada 100 habitantes com mais de 65 anos, enquanto a média europeia é de cinco, segundo o relatório Health at a Glance 2025, da OCDE. O dado coloca o país entre os mais defasados da Europa em um setor que se torna cada vez mais crítico: o de cuidadores de idosos.

O país está com a segunda população mais velha do continente (idade mediana de 47,3 anos, mais de dois anos a mais que a média da União Europeia, de 44,9, segundo o Eurostat), e a demanda por esses profissionais só cresce, mas está cada vez mais difícil encontrá-los.

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Idosos da Santa Casa de Misericórdia em Lisboa. Crédito: DivulgaçãoQuem sustenta esse setor são, em grande parte, imigrantes. No Lar Santa Sofia, em Lisboa, 90% dos currículos recebidos são de estrangeiros, predominantemente brasileiras e africanas, segundo Raquel Avelino, coordenadora da instituição.

Na ARIPSI (Associação De Reformados E Idosos Da Póvoa De Santa Iria), associação que cuida de cerca de 160 idosos, 80% dos 60 profissionais da instituição são estrangeiros. “Os portugueses não procuram trabalhar com essa atividade”, resume Luis Vieira, presidente da instituição há mais de 30 anos.

O problema é que esse fluxo está sendo represado. O fim da manifestação de interesse, mecanismo que permitia a imigrantes já em solo português requerer residência legal, reduziu significativamente a entrada de novos trabalhadores no setor. A Agência para Integração, Migrações e Asilo (Aima) estima uma queda de 59% no número de novos pedidos de títulos de residência após o fim da manifestação de interesse.

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“A procura tem diminuído bastante e acho que isso deve acontecer cada vez mais“, diz Raquel, que hoje gerencia 22 casas e 67 profissionais. ” Acho que é importante estimular essas pessoas a se regularizarem ao trabalhar nessa área, mas as ações do Governo têm sido no sentido contrário”, avalia.

O resultado é que mesmo entre imigrantes, historicamente mais dispostos a aceitar as condições do setor por ser uma porta de entrada no mercado de trabalho, a área começa a perder atratividade. A escassez, no entanto, não é novidade e tem uma raiz que vai além da imigração.

Os salários baixos e as condições de trabalho difíceis já faziam da área uma das com maior rotatividade mesmo antes das restrições. “A gente vê a falta que faz um cuidador na vida das famílias, mas por causa do salário é difícil encontrar pessoas para trabalhar na área”, diz Kelly Regina Freire, auxiliar de ação direta na ARIPSI há um ano e meio.

Kelly Regina Freire explica que a maioria das cuidadoras são imigrantes. Crédito: Renan Araujo

Com a baixa remuneração, que hoje é pouco maior do que o salário mínimo nacional de 920 euros, muitas cuidadoras buscam trabalhar para várias casas visando complementar suas rendas.

“Quando você tem um contrato você recebe um valor base e vários subsídios, mas quando se trata de apoio domiciliário o trabalho é remunerado por recibo verde, que permite prestar serviços em várias casas e obter uma renda maior”, conta ela.

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O desgaste não é só financeiro. A cuidadora Alcione Silva de Oliveira descreve uma rotina que exige tanto fisicamente quanto emocionalmente. “É uma área que exige muito esforço físico e há situações que mexem com o nosso psicológico. Isso cansa e acaba afetando até a nossa rotina em casa”, conta.

Alcione Silva de Oliveira destaca que o trabalho das cuidadoras precisa ser mais valorizado. Crédito: Renan Araujo

A visão das instituições

O cenário de falta de cuidadoras no mercado ainda não impactou instituições como a ARIPSI, segundo o presidente Luis Vieira. Apesar disso, ele afirma que poderá haver dificuldades especialmente pra a contratação de mão de obra qualificada, o que levaria a instituição a um impasse difícil de resolver.

“Todos os dias temos procura, mas sofremos com a falta de profissionais qualificados. Se a oferta reduzir, teremos que aumentar os valores pagos, mas para isso precisamos de receita e, por sermos uma instituição social, não podemos ter lucro. É um cenário complicado”, explica Vieira, ressaltando que o trabalho do cuidador exige formação e preparo.

Luis Vieira, presidente da Aripsi, procura por mão-de-obra qualificada. Crédito: Renan Araujo

Ele acredita que poderia haver algum apoio por parte do Estado para a contratação de trabalhadores, mas prefere não opinar sobre as questões de imigração. “A política é do governo. Se chegarem pessoas qualificadas para nós está tudo bem”, frisa.

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Para Raquel Avelino, a solução passa por reconhecer o setor como estratégico e criar incentivos para que imigrantes se regularizem justamente por meio dele. “Não existem lares e nem pessoas suficientes para cuidar de todos os idosos. É importante estimular essas pessoas a se regularizarem ao trabalhar nessa área“, defende.

Alcione concorda e lembra que o envelhecimento da população torna o problema urgente: “Todos nós vamos chegar nessa idade. Os cuidadores precisam ser valorizados“, finaliza.

renan@revistaentrerios.pt

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