A União Europeia anunciou, em junho, um investimento de 260,8 milhões de euros no fortalecimento da infraestrutura de cabos submarinos de fibra óptica que conectam Brasil e Portugal. A estrutura amplia a capacidade de transmissão de dados e reforça a ligação entre os dois países. Os recursos fazem parte do programa Connecting Europe Facility (CEF Digital), da Comissão Europeia.
A conexão percorre cerca de 6 mil quilômetros entre Sines, em Portugal, e Fortaleza, no Brasil, e foram instalados em 2021. O objetivo era melhorar a conectividade e aumentar a segurança do sistema, que não depende de intermediários, com ramificações que passam pela África, por países como Marrocos e Cabo Verde. Ao chegar em solo brasileiro, os cabos se unem à infraestrutura terrestre, que leva as informações até cidades como São Paulo e Rio de Janeiro e, a partir desses pontos, distribui o sinal para outras regiões do país.

Cabos submarinos entre Portugal e Brasil possuem mais de seis mil quilômetros. Crédito: Divulgação EllaLink
Com o aumento do tráfego de dados, a estrutura precisou ser ampliada, apesar da vida útil estimada em 25 anos. O processo é operado pela empresa EllaLink, que oferece serviços de conectividade para operadoras de telecomunicações, plataformas de nuvem, empresas e governos.
“Eles viajam na forma de pulsos de luz por fibras ópticas no interior do cabo: as informações provenientes de um computador ou de um data center são convertidas em sinais luminosos, enviados através do Atlântico pelos pares de fibras e, ao chegar ao destino, convertidos novamente em dados”, explica Vincent Gatineau, vice-presidente sênior de Desenvolvimento de Infraestrutura Submarina.
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Com os novos investimentos da União Europeia, serão construídos outros trechos de conexões para a Mauritânia e a Guiana Francesa. Outras duas chegarão a Salinópolis, no Pará, e São Luís, no Maranhão, além de mais dois cabos adicionais previstos para o futuro. Ao todo, a rede terá mais de 10 mil quilômetros.

Estrutura de cabos submarinos será ampliada com novo investimento da União Europeia. Crédito: EllaLink
A empresa garante que o sistema ofereça melhorias para a conectividade de dados e estrutura em nuvem no Brasil e na Europa; redução da latência, ou seja, do tempo necessário para percorrerem o caminho entre dois pontos, o que é importante para atividades que dependem de respostas em tempo real, como transmissões ao vivo, jogos on-line e aplicações de inteligência artificial; e a diversidade, ou seja, o fato de não precisar estar ligado a conexões da América do Norte, permitindo que as operadoras tenham mais eficiência na prestação dos serviços.
“Antes da EllaLink, qualquer empresa que precisasse se ligar diretamente entre a América Latina e a Europa não tinha alternativa a não ser direcionar o tráfego pelos Estados Unidos, acrescentando distância, tempos adicionais e dependência de um terceiro país”, destaca Vincent Gatineau.

Vincent Gatineau, vice-presidente sênior de Desenvolvimento de Infraestrutura Submarina da EllaLink. Crédito: Divulgação EllaLink
Segundo ele, essa rede reforça a atratividade do Brasil como destino para investimentos em nuvem e data centers, tornando-o rota para mercados globais. “Para Portugal, ela estabelece o país como um ponto estratégico de ligação entre Europa, América Latina, África e as ilhas do Atlântico”, aponta.
Por que Portugal é estratégico para os cabos submarinos
Américo Mascarenhas, técnico do Museu das Comunicações em Lisboa, explica que os cabos submarinos são antigos: o primeiro foi construído em 1850 entre a França e a Irlanda. “O cabo submarino aproxima pessoas e vence a distância, ou seja, liga quem está separado por mares e oceanos”, ressalta. Os primeiros foram os telegráficos, para que o sinal dos telégrafos pudesse funcionar.
Depois surgiram os cabos coaxiais, para a conexão por telefones e transmissão da voz, e em seguida os de fibra óptica, para a transmissão de imagens. Mesmo no século XIX, o sinal de telégrafo fazia a mensagem chegar em dois ou três minutos ao invés de chegar por carta. A primeira ligação feita em Portugal aconteceu com a Inglaterra entre o rei Dom Luís e a rainha Vitoria, da Inglaterra.
A conexão evoluiu até chegar aos mais modernos, de fibra óptica, que permitem uma comunicação entre dois continentes em apenas 30 milésimos de segundo. O primeiro cabo de fibra óptica em Portugal é de 1992, que ligou Portugal continental, a Ilha da Madeira, Gibraltar e o Marrocos. “Temos uma evolução tecnológica que nos permite chegar cada vez mais depressa em qualquer ponto do planeta. Hoje nos comunicamos na velocidade da luz”, frisa.
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A EllaLink coloca Portugal numa posição estratégica de ligações com a América do Sul e do Norte, com a África, com a Ásia, com o Mediterrâneo e todas as regiões da Europa. “É o único país no mundo com essa ligação direta, exceto à Antártida”, reitera.
“Mascarenhas destaca que Brasil e Portugal são países irmãos, com ligações históricas e intenso intercâmbio de informações.”

Américo Mascarenhas é especialista do Museu das Comunicações. Crédito: Renan Araujo
Antes, os dois países eram ligados pelo cabo Atlantis II, que já era composto por fibra óptica, mas com capacidade muito menor. Ele compara os cabos atuais a uma estrada que precisou ser alargada, com mais faixas e melhores condições de circulação. “O volume de tráfego aumenta, a rapidez tem que ser maior. A informação é transmitida 24 horas por dia e passa ao milésimo de segundo”, compara.
“Vai ser preciso aumentar cada vez mais esse sistema e dotá-lo de maior capacidade para a transmissão com velocidade. E temos visto maiores investimentos. Não há um limite”, finaliza ele.
O Museu das Comunicações possui uma exposição completa sobre os cabos submarinos.
Como funcionam os cabos submarinos de fibra óptica
Os cabos submarinos podem chegar a uma profundidade de até 1.500 metros no fundo do oceano. Com cerca de 4 centímetros de diâmetro, são formados por camadas de proteção que incluem fios de aço e outros materiais resistentes às condições do ambiente marinho. Em algumas regiões, os cabos também são enterrados no leito oceânico para reduzir o risco de danos provocados por atividades humanas.
No interior dos cabos ficam as fibras ópticas, responsáveis pela transmissão dos dados por meio de pulsos de luz. Ao longo da rota, equipamentos chamados repetidores recebem e reforçam o sinal para compensar as perdas que ocorrem durante a longa distância percorrida pelas informações. Os cabos também possuem componentes responsáveis por conduzir a energia elétrica necessária para alimentar esses equipamentos.

Cabo que passa pelo oceano e é responsável pela transmissão dos dados. Crédito: Divulgação EllaLink
Uma série de estudos é realizada para que haja eficiência sem grandes impactos ao meio ambiente. “Há tarefas e trabalhos prévios que são feitos para que nós possamos efetivamente colocar uma infraestrutura no fundo do mar que não vai interferir com a vida marinha e que seja uma mais-valia”, afirma Mascarenhas. A EllaLink afirma que a empresa está ligada a projetos inteligentes de sensoriamento, para apoiar pesquisas em oceanografia, sismologia e monitoramento climático.
Ao todo no mundo existem mais de 1,6 milhão de quilômetros de cabos que realizam a conexão entre os mais diversos países, o suficiente para dar mais de 40 voltas no planeta. Hoje, 99% do tráfego internacional passa pelos cabos submarinos.
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A infraestrutura dos data centers
Ao chegar ao Brasil ou a Portugal, os dados são encaminhados por vias terrestres. O cabo submarino chega a um centro de aterragem, onde os sinais são transferidos para redes terrestres que os levam para o interior dos países, incluindo data centers e provedores de internet.
Victor Arnaud, presidente da Equinix Brasil, multinacional responsável pela infraestrutura de data centers, explica que os cabos são parte de um ecossistema que está todo interligado.

Victor Arnaud, da Equinix Brasil, explica a importância do sistema estar conectado aos data centers. Crédito: Divulgação
“Os maiores deles chegam a grandes data centers da Equinix no Rio de Janeiro, em São Paulo ou em Lisboa, que funcionam como grandes centros de distribuição. O tráfego chega a um grande centro onde estão, de um lado, os players de conteúdo e, de outro, as operadoras que têm os usuários. É ali que acontece a troca de tráfego. Um não funciona sem o outro”, esclarece.
Rio e São Paulo são os grandes centros e onde há maior atividade digital. Segundo Arnaud, levar os cabos submarinos a mais lugares pode ajudar a transformar e a melhorar a qualidade de internet em pontos que ainda não estão no mapa da informação digital.
“Você passa a levar uma tecnologia muito estabelecida e confiável, e provavelmente viabiliza negócios que antes não eram possíveis. Quanto mais conectividade conseguirmos levar para lugares mais remotos, mais negócios conseguimos gerar e mais a economia se beneficia disso”, celebra Arnaud.
Hoje a Equinix possui 282 data centers no mundo, com 522 mil interconexões entre clientes e uma base de aproximadamente 12 mil a 13 mil clientes. A empresa está presente no Brasil, com nove data centers, e em Portugal, com dois. Dentro de cada unidade podem existir vários data centers isolados com diversos servidores. No Brasil, a empresa chega a concentrar mais de 50% de todo o tráfego do país e chegou a mais de 10 terabytes por segundo durante a Copa do Mundo, um recorde histórico.

Um dos data centers da Equinix em Santana de Parnaíba, em São Paulo. Crédito: Divulgação
“À medida que os anos passam a troca de informação será feita cada vez mais em tempo real, com latência mínima e maior volume de conteúdo, especialmente agora com a inteligência artificial em que a demanda tende a aumentar de forma exponencial. Uma coisa puxa a outra. Por isso é tão importante que o ecossistema avance de maneira conjunta”. Ele diz não vislumbrar um limite para esse crescimento, embora ressalte que a expansão não acontece de um dia para o outro.
“A evolução continuará acompanhando o desenvolvimento tecnológico e a convergência entre diferentes tecnologias”, finaliza o executivo.
renan@revistaentrerios.pt

Renan Araújo