A americana Simone Biles tinha quatro medalhas olímpicas de ouro quando desistiu da final dos Jogos de Tóquio, em 2021, insegura e sem planos para o futuro. O maior nome da ginástica mundial chocava o mundo ao anunciar a necessidade de priorizar a saúde mental como justificativa para o passo atrás. Sua fraqueza fortaleceria o debate no universo esportivo diante da evidência de que atletas são de carne e osso, sentem dor, sofrem, são cobrados e, às vezes, a cabeça pifa. Aconteceu recentemente com dois atletas brasileiros de alto nível e do mesmo esporte: os tenistas Bia Haddad, de 30 anos, e João Fonseca, de 19.
Em 2023, sua melhor fase, Bia chegou a ser top 10 do mundo, o que lhe rendeu comparações com Maria Esther Bueno, maior tenista da história do Brasil. Até que, um dia, a casa começou a cair. A derrocada foi inexplicável. Bia parecia duelar consigo mesma em quadra, sucumbindo diante de adversárias que anos antes conseguiria atropelar com certa facilidade. Há um ano, a tenista apresentou um quadro de falta de ar e tremores durante um jogo em Seul, na África do Sul. A crise de ansiedade delatava que estava ali, diante dos olhos de todos, uma tenista perdendo o controle de sua própria raquete. Após uma sequência de maus resultados, Bia Haddad caiu em desgraça e, também, no ranking. A ex-décima do mundo chegava à posição 154.
Bia não achou na psiquiatria respostas para o fracasso. Quase surtou. Decidiu, então, dar um tempo na carreira, pendurar a raquete em algum canto escondido da casa, sumir das quadras. Quem a viu nas redes sociais dizendo que volta no ano que vem, não sentiu firmeza na promessa. A verdade é que, hoje, a felicidade da tenista não parece estar nas quadras e na bolinha felpuda amarela. Bia quer casar, viver, curtir a família e cuidar do corpo maltratado por anos e anos. Bia leva essa vida de tenista desde os 11 anos. Saturou, não aguenta mais.
Seu companheiro de tênis, João Fonseca, passa aparentemente pelo mesmo estresse, a mesma angústia. Um esgotamento que somente os atletas de ponta conseguem compreender. Ele desistiu do ATP 500 de Tóquio, no fim do mês, e do Masters 1000 de Xangai, na China, em outubro. Anunciou a decisão após desabar em lágrimas ao vencer uma partida da Copa Davis. João disse que precisava cuidar do corpo e da… cabeça.
Há alguns anos, era impossível associar a fragilidade emocional a um atleta do nível desses aqui citados. É louvável, portanto, quando um ou outro, corajoso, desce do pódio para pedir socorro e dizer ao mundo que é possível, sim, tropeçar, levantar e sofrer tanto na vitória quanto na derrota. Caberiam aqui inúmeros outros exemplos, mas fiquemos com Michael Phelps no desfecho desse texto que soa como proposta de reflexão. O nadador americano, um dos maiores atletas de todos os tempos, com suas impressionantes 28 medalhas de ouro, sofreu de depressão e hoje, dez anos depois de ter deixado de competir profissionalmente, é um dos principais engajados na luta pela conscientização sobre a saúde mental. Merecia uma medalha também por isso.

Marluci Martins