O escritor e secretário de cultura de Portugal, Alberto S. Santos, apresentou nesta quarta-feira (22), na livraria da Travessa, em Lisboa, o seu mais novo livro “Rosas de Barbacena”, que narra um capítulo muito sombrio da história do Brasil.
O romance publicado pela Porto Editora é inspirado em fatos reais e conta o caso do Hospital Colónia de Barbacena, no interior de Minas Gerais, instituição que funcionava como uma espécie de “limpeza social” e onde eram internadas pessoas consideradas indesejáveis para a sociedade como indigentes, alcoólicos, prostitutas, homossexuais, mães solteiras e outros grupos marginalizados.

Apenas 30% deles tinham diagnósticos de doenças mentais. Fundado em 1903, foi apenas na década de 1980 que o hospital encerrou suas atividades. O trágico caso é chamado do “Holocausto Brasileiro”.
Os internados eram aprisionados e submetidos a condições degradantes de higiene e passavam fome e frio, além de maus tratos e abusos físicos e psicológicos. Estima-se que mais de 60 mil pessoas internadas foram mortas no local, sem que houvesse qualquer despedida ou funeral digno a essas pessoas.
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Parte dos corpos também foi levada para utilização em faculdades de medicina. Segundo pesquisa da jornalista Daniela Arbex, 1.857 cadáveres foram vendidos entre 1969 e 1981 para 17 instituições de ensino, com preços em torno de R$323 na cotação atual.
Recentemente, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pediu desculpas à sociedade brasileira pela violação de direitos humanos. A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) também estuda fazer o mesmo. O Ministério Público Federal (MPF) deve entrar com ações de reparação às famílias.
Para Alberto, o livro não tem o objetivo de fazer uma denúncia sobre o caso, mas é uma maneira de homenagear as pessoas que estiveram por lá, além de conscientizar para que mais episódios como esses não aconteçam de novo.
“Esse é um pouco o papel da literatura. É dar voz e reforçar a memória de coisas que nós não podemos deixar cair no esquecimento. Essas pessoas merecem esse reconhecimento já que não tiveram isso ao longo de suas vidas”, afirma.
Para ele, é preciso desmistificar a ideia de que os internados eram pessoas doentes, criminosas ou “monstros”, mas sim eram pessoas consideradas incômodas à sociedade e, assim eram retiradas do convívio social, inclusive por parte de parentes próximos ou cônjuges.
“O que vemos aí é o sistema a funcionar em que não há uma sensibilidade humana. Era uma espécie de higienização social que foi muito contribuída pelo regime da ditadura militar brasileira. As pessoas entram e cada funcionário apenas cumpria o seu papel dentro desse sistema sem que houvesse consciência crítica ou sentimentos de remorso”, lamenta.
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Alberto conta que esteve em Barbacena e ouviu os relatos de pessoas que estiveram por lá e de seus antepassados e conta que essa foi a parte mais difícil de escrever. Para além de todos os horrores, ele narra o estado de abandono de crianças que nasciam no local.
“Muitas crianças que nasciam lá eram levadas a fazendeiros ou outras pessoas da região para serem adotadas ou mesmo para trabalhar para famílias, mas havia aquelas que ficavam por lá, não havia a quem entregar”, recorda.
O autor ainda comenta que o título “Rosas de Barbacena” foi dado pelo fato da cidade mineira ser à época a segunda maior produtora de rosas do Brasil e ser conhecida como a “cidade das rosas” e a “cidade dos loucos”.
Boa parte dos internados no hospital também era utilizado como mão-de-obra dos roseiros das fazendas no município. Na ilustração de capa, o trem simboliza o chamado “Trem dos Loucos”, que contava com um vagão específico para transportar pessoas que seriam internadas no hospital.
A obra acompanha a história de Teresinha Alvarenga e suas relações improváveis que trazem refúgio e esperança e que atravessam os anos. As personagens são fictícias mas são inspiradas em fatos reais a partir de entrevistas feitas pelo próprio autor.
“O que mais me impressionou em relação às pessoas que sobreviveram é que não tinham a mínima noção de como era a vida fora do hospital. As pessoas tiveram que ser ressignificadas e reprogramadas para a vida em sociedade e tudo isso foi um aprendizado para mim porque foram histórias muito bonitas de superação. Mas são marcas que ficam para sempre”, ressaltou.
Esse é o oitavo livro de Alberto S. Santos, que é também advogado e palestrante. Atualmente como Secretário de Cultura de Portugal (equivalente a ministro), ele já atuou como presidente da Câmara Municipal de Penafiel, como administrador dos portos de Leixões e Viana do Castelo e deputado.
É autor dos romances bestsellers A Escrava de Córdova (2008), A Profecia de Istambul (2010), O Segredo de Compostela (2013), Para lá de Bagdad (2016), Amantes de Buenos Aires (2019) e A Senhora das Índias (2024).
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Renan Araújo