Há lugares que dão a impressão de terem parado no tempo. Cerdeira — Home for creativity é um deles. Escondida no coração da Serra da Lousã, a 37 quilômetros de Coimbra, a aldeia funciona como um refúgio para quem quer diminuir o ritmo e se reconectar com o “seu” essencial. A paisagem parece uma pintura: casas de xisto (um tipo específico de rocha) encaixadas na encosta e trilhas cercadas por vegetação nativa.
Cerdeira — Home for creativity é o nome dado à aldeia com apenas 10 cabanas quando ela virou um centro criativo com oficinas, residências artísticas e práticas manuais. Embora tenha mais de 300 anos, Cerdeira, o nome original, esteve praticamente abandonada até 1988. Foi quando o casal alemão Kerstin Thomas e Bernard Langer descobriu a aldeia durante um passeio e se apaixonou.
Com a ajuda de amigos, entre eles os portugueses José e Natália Serra, começaram a recuperar, pouco a pouco, as antigas casas, seguindo as técnicas tradicionais: madeira de castanheiro, rebocos de barro e palha, além de pedra de xisto. Em 2018, renasceu oficialmente com o novo nome acrescido de um composto em inglês indicando que a aldeia passava a ser um projeto.
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“Naquele tempo, não havia eletricidade, telefone, água canalizada, estrada de acesso — e apenas um morador residia aqui, o senhor Constantino, já falecido. Crescemos na aldeia”, conta Catarina Serra, filha de José e Natália e diretora geral do projeto. Hoje, Cerdeira — Home for creativity é exemplo de turismo responsável. Usa recursos locais, privilegia fornecedores da região e até produz parte da sua própria energia solar. A dedicação rendeu à aldeia a Ecolabel da União Europeia, selo que reconhece produtos e serviços com baixo impacto ambiental, consolidando a aldeia como referência em ecoturismo.

Cerdeira tem apenas dez cabanas. Crédito: Manuel Gomes da Costa
E como é dormir a cerca de 1.204 metros de altitude, cercado por azinheiras, castanheiros e carvalhos? Não há sinal de celular ou televisão. Mas há livros, jogos de tabuleiro e histórias para descobrir. As 10 habitações têm diferenciais.
A Casa do Forno, por exemplo, preserva o antigo forno da aldeia (onde os moradores assavam pão) como parte da decoração. Intervenções artísticas também marcam presença no espaço, como um painel de azulejos, assinado por Cristina Vilarinho e Alberto Azedo. Em volta de todas as cabanas, a beleza da natureza.

Nas cabanas não há televisão, apenas jogos. Foto: Marta d_Orey
O coração criativo da Cerdeira pulsa na Escola de Artes e Ofícios, que oferece cursos e workshops para iniciantes ou profissionais. O visitante pode se aventurar em aulas de cerâmica, marcenaria, cestaria e técnicas tradicionais raras, em oficinas conduzidas por especialistas. “Temos como missão ser um epicentro de inspiração cultural através da arte”, ressalta Catarina.
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Cerdeira oferece aulas de cerâmica, marcenaria e cestaria. Foto: Marta d_Orey
O grande destaque é o Sasukenei Kiln, o único forno desse tipo na Península Ibérica e um dos 12 existentes no mundo. Criado pelo japonês Masakazu Kusakabe, ele permite cozedura a lenha sem emissão de fumaça, garantindo segurança até durante a estação de incêndios. Resultado? Peças únicas, texturas inesperadas e um processo criativo que deixa qualquer aprendiz maravilhado.
A experiência inclui a gastronomia local, claro. No Café da Videira, o pão fresco, bolos recém-saídos do forno e ingredientes da região é um delicioso ritual acompanhado de uma vista panorâmica. Para quem vai explorar a serra, há a opção de fazer um piquenique com produtos locais. À noite, o jantar chega à porta das cabanas com sopas caseiras, pratos típicos como a chanfana (cabrito cozido lentamente em caçarola de barro preto) e opções vegetarianas. Há ainda degustações de vinhos com rótulos das regiões vizinhas (Dão, Bairrada e Beira Interior).
A história ao longo dos séculos
Cerdeira, ou Sardeira no português antigo, faz referência à cerejeira. Acredita-se que a região tivesse essas árvores, embora hoje elas quase não existam por ali. Mas a história da aldeia vai muito além da flora: registros arqueológicos indicam ocupação desde a pré-história de romanos, árabes e bárbaros. Mais tarde, segundo relatos, D. Dinis, antigo rei de Portugal, ordenou a povoação da Serra da Lousã com vários casais. Em 1940, a aldeia chegou ao seu auge, com 79 moradores. Com o tempo, os moradores partiram em busca de melhores oportunidades. Em 1970, ela ficou totalmente abandonada.
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Renata Telles