Mais de 100 vinhos de 16 produtores de 13 regiões portuguesas estarão reunidos no sábado (26), durante a primeira edição do Palaphita Wine Experience, em Cascais. O evento será realizado das 15h às 21h, no Palaphita, na Casa da Guia, com vista para o Atlântico, e pretende aproximar o público dos produtores, além de promover experiências de degustação e harmonizações.
A seleção de vinhos foi feita pelo consultor Rui Ferreira e inclui rótulos de regiões como Douro, Alentejo, Lisboa, Dão, Bairrada, Vinhos Verdes, Trás-os-Montes e Açores. Ao longo da tarde, os participantes poderão provar diferentes vinhos e conversar diretamente com representantes dos projetos. Entre os produtores confirmados estão Quinta das Camélias, Herdade do Rocim, Scylla Wines, Odisseia Wines, Caves de São Domingos, Quinta do Côro, Quinta da Lapa e Altas Quintas.
À mesa, os rótulos portugueses serão acompanhados por pratos de inspiração amazônica da chef Natacha Fink, que irá sugerir harmonizações com opções da carta do restaurante. A proposta é mostrar que características, como, acidez, frescor, intensidade e textura podem transformar a experiência de um prato.
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Em entrevista à EntreRios, a chef falou sobre as possibilidades de combinar vinhos portugueses com ingredientes e pratos brasileiros, deu exemplos de harmonizações que podem surpreender e explicou como quem não entende de vinho pode experimentar os rótulos sem medo.
O que faz uma harmonização funcionar quando colocamos lado a lado vinhos portugueses e sabores brasileiros? É mais importante pensar na intensidade dos ingredientes, na acidez, na gordura, na textura ou não existe uma regra única?
Para mim, harmonização não é apenas regra; é também, essencialmente, feeling. Uma boa harmonização procura o equilíbrio entre os sabores da comida e as características do vinho. Nenhum deve se sobrepor ao outro. Os dois precisam ter espaço para se expressar e, idealmente, tornarem-se ainda melhores na companhia um do outro.
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É claro que existem princípios que nos orientam. Se temos um prato com mais gordura, por exemplo, podemos buscar um vinho com boa acidez ou estrutura tânica, capaz de trazer equilíbrio e limpar o paladar. Também é importante observar intensidade, textura, aromas e persistência. Gosto muito de trabalhar tanto com aproximações quanto com contrastes.
Uma combinação que pode surpreender um brasileiro é o espumante da Bairrada com leitão. Você consegue imaginar, por exemplo, um mineiro tomando espumante com leitão à pururuca?
Consigo perfeitamente! Talvez a primeira reação seja de estranhamento, porque no Brasil não temos tão enraizada essa associação entre espumante e carnes mais gordurosas. Mas, quando se prova, tudo faz sentido: a acidez e a efervescência do vinho ajudam a equilibrar a gordura do leitão e deixam o paladar pronto para a próxima garfada.
Portugal oferece muitas outras possibilidades interessantes para a cozinha brasileira. Um Alvarinho pode funcionar muito bem com peixes, mariscos e preparações com acidez e frescor. Um branco do Alentejo, com mais corpo e textura, pode acompanhar pratos com leite de coco e até uma moqueca. Já determinados tintos portugueses podem criar combinações interessantes com carnes de longa cocção, como uma costela ou uma carne de panela.
Se pensarmos em pratos muito brasileiros, como feijoada, moqueca, acarajé ou tacacá, quais deles podem render combinações surpreendentes com rótulos portugueses?

Feijoada do restaurante Palaphita. Crédito: Divulgação
Eu acredito que devemos deixar de lado as ideias preconcebidas. Grandes espumantes da Bairrada podem funcionar muito bem até com uma feijoada, justamente pela acidez e pelo frescor, que ajudam a equilibrar a riqueza e a gordura do prato.
Para moqueca e acarajé, gosto de um rosé do Douro com mais corpo, estrutura e presença. É preciso um vinho que consiga acompanhar a intensidade do coco e do dendê sem desaparecer.
Já o tacacá, e tudo o que leva tucupi, é um universo que me interessa particularmente. O tucupi tem uma acidez muito própria e uma enorme complexidade aromática. Gosto muito de harmonizá-lo com um bom Encruzado do Dão, de preferência monocasta. É uma combinação que já experimentei e que funciona muito bem.

Chef Natacha Fink. Reprodução/Instagram @natachafink
Há algum vinho ou região portuguesa que você gostaria de apresentar ao público brasileiro por acreditar que combina particularmente bem com a nossa gastronomia, mas que ainda é pouco explorado nessa ponte entre as duas cozinhas?
Há combinações que valeria muito a pena explorar. Um exemplo que adoro é o vinho do Porto com chocolate e sabores amazônicos. Imagine um bombom de chocolate com cupuaçu ou castanha-da-Amazônia acompanhado de um bom Porto. O cupuaçu, principalmente, com sua acidez e personalidade, cria um contraste muito interessante com a doçura e a complexidade do vinho.
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Também exploraria muito mais os espumantes da Bairrada com nossos peixes amazônicos preparados na brasa. Tambaqui e pacu são peixes de sabor intenso e, em alguns casos, bastante gordurosos. A acidez, o frescor e a efervescência de um bom espumante da Bairrada podem criar uma combinação muito interessante.

Ambiente do restaurante Palaphita. Crédito: Divulgação
Para quem vai ao Palaphita Wine Experience e não entende muito de vinho, mas gosta de comida brasileira, qual seria a sua dica para experimentar sem medo e descobrir uma boa harmonização?
Minha primeira dica seria esquecer por um momento as regras e experimentar sem medo. Não é preciso entender de vinho para perceber quando uma combinação funciona. Nosso paladar sabe muito mais do que imaginamos. No primeiro gole, observe a acidez, o frescor, a intensidade e os aromas. Depois, dê uma garfada e volte ao vinho. É nesse segundo gole que a harmonização realmente acontece. Perceba se o vinho mudou, se a comida ficou mais interessante ou se apareceu algum sabor que você não tinha notado antes. E não tenha medo de não gostar. Descobrir o que não funciona para o seu paladar também faz parte da experiência.
Como participar do evento
Além das degustações e da gastronomia, o evento terá música do DJ Levy Gasparian. A entrada é gratuita, mas quem quiser participar das provas de vinho precisará adquirir o ingresso de degustação. Os pratos serão pagos à parte. Os bilhetes incluem as provas de todos os vinhos participantes, uma pulseira de identificação e uma taça, e a degustação é exclusiva para maiores de 18 anos.
O Palaphita mantém em Cascais a identidade amazônica que acompanha a história do restaurante desde sua criação no Rio de Janeiro, em 2004. A operação portuguesa foi aberta em 2020 e combina referências da cultura alimentar amazônica com ingredientes e hábitos locais.
Serviço
Palaphita Wine Experience 2026
Quando: 26 de setembro
Horário: das 15h às 21h
Local: Palaphita, Casa da Guia
Endereço: Avenida Nossa Senhora do Cabo, 101, Cascais
Entrada: gratuita; degustações de vinho são pagas
Pratos: cobrados à parte
fernanda@revistaentrerios.pt

Fernanda Baldioti