Ator, argumentista, autor e diretor, Welket Bungué construiu uma trajetória artística marcada pelo trânsito entre países, culturas e diferentes linguagens. Ele vive um momento de expansão internacional da carreira. Depois de passar os primeiros meses de 2026 no Brasil, no elenco da novela A Nobreza do Amor, da TV Globo, o ator guineense retornou à Europa com o objetivo de se aproximar novamente da indústria cinematográfica europeia — movimento que também o levou a Cannes, desta vez a título pessoal.
Entre a televisão, o cinema e a moda, que teve papel importante na construção de sua trajetória, Bungué fala sobre os caminhos que encontrou para circular em espaços historicamente restritos, a necessidade de ampliar a representatividade negra no audiovisual e os limites de uma diversidade que não se resume à presença de atores negros nas telas. Com a estreia do filme Nova Eden previsto para este ano, o artista também reflete sobre identidade, pertencimento e a Lisboa multicultural que, segundo ele, já existe, mas ainda precisa reconhecer e valorizar plenamente as diferentes histórias que formam a cidade. “A minha intenção é estar mais presente na indústria do cinema europeu”
Confira a entrevista!

O que você pode adiantar sobre os projetos deste ano?

O 2026 começou lindamente, porque eu pude participar do elenco dessa novela maravilhosa, A Nobreza do Amor, da TV Globo,  em que pude filmar os três primeiros meses do ano no Brasil. Depois, retornei para a Europa porque tive a intenção de voltar a estar mais presente na indústria do cinema europeu. E também por isso fui para Cannes, porque fui a título pessoal. Este ano, está prevista a estreia do filme Nova Eden. 

Sua trajetória passa por diferentes países e mercados. Como você encontrou seu espaço dentro da indústria audiovisual?

A forma que encontrei de me integrar no meio audiovisual foi através da moda. Eu precisava formalmente adquirir os códigos que evidenciassem que eu era uma pessoa educada, formada e que também poderia transitar nesses meios mais exclusivos.

Welket Bungué. Crédito: Jordan Alves

Welket Bungué começou a carreira como modelo em Lisboa. Crédito: Jordan Alves

A necessidade de adquirir esses códigos tem relação com sua experiência como uma criança negra?

Na verdade, não. Não porque o internato era multiétnico, e eu não poderia ter crescido num lugar mais salubre do que esse internato em Portugal. Até porque a minha percepção do país tenta de alguma forma, desconstruir a lógica do racismo institucional e sistêmico, sem olhar crítico. Precisamos de uma representatividade maior.

Você acredita que o audiovisual tem um papel importante nesse processo de desconstrução?

Sem dúvida. E gostaria que, no decorrer da novela A Nobreza do Amor, os temas abordados continuassem a ser contados ao público. Não há nada mais benéfico do que ter acesso ao entretenimento de massas que ainda é educativo, formativo e, para além disso, inspirador para o público que está a assistir como uma novela.

Ivete Sangalo. Crédito: Rafael Mattei Leia também Ivete Sangalo promete transformar Cascais em uma roda de samba: “Quero viver esse sonho com Portugal”
Welket Bungué. Crédito: Auri Mota

Érika Januza, Duda Santos e Welket Bungué em “A Nobreza do Amor”. Crédito: Auri Mota

A representação de pessoas negras mudou, mas ainda há muitas críticas, principalmente em Portugal. Como você avalia esse cenário?

Já disse, especialmente aqui em Portugal, que nós, nas novelas ou nos filmes de época, infelizmente, ainda se valoriza muito a narrativa do período colonial ou escravocrata e aí que nós acabamos por ver os corpos negros que representados. Eu acredito que, em razão do ativismo das pessoas diretamente envolvidas nessa temática — artistas que não se limitam aos modelos hegemônicos da indústria, representantes de minorias étnicas e artistas que se reconhecem como afrodescendentes —, há uma reivindicação crescente por maior espaço de representatividade e por iniciativas que contribuam para ampliar e elevar a qualidade da produção de outros artistas.

Então, para você, não basta simplesmente colocar atores negros nas produções?

Não. É preciso questionar que personagens estamos a criar, que histórias estamos a contar e de que maneira essas pessoas são representadas. A diversidade não pode ser apenas uma palavra bonita. Tem de existir também na escrita, na realização, na produção e nas decisões que determinam aquilo que chega ao público.

Você também defende uma Lisboa mais multicultural. O que falta para a cidade assumir plenamente essa característica?

Lisboa já é multicultural. O que falta é reconhecer essa realidade e dar espaço para que todas essas comunidades possam contar as suas próprias histórias. Lisboa precisa assumir a diversidade que já existe. Há muitas pessoas que fazem parte da cidade, que nasceram aqui ou que chegaram de outros lugares, e que continuam a ser vistas como estrangeiras. Acho que é preciso ultrapassar essa ideia limitada de pertença.

Welket Bungué. Crédito: Divulgação

Welket Bungué no Festival de Cannes este ano. Crédito: Divulgação

Mayra Andrade. Crédito: Rita Braz Leia também Mayra Andrade: “A África é muito mais diversa e rica do que os estereótipos costumam mostrar”

E qual é o papel dos artistas nesse processo?

O artista tem a responsabilidade de observar aquilo que está à sua volta e questionar. Nós podemos criar novas imagens, novas narrativas e novas possibilidades de identificação. Quando uma pessoa vê alguém parecido consigo num filme, numa novela ou numa peça, isso pode transformar a forma como ela se vê e como imagina o próprio futuro.

Depois de uma carreira que já passou por cinema, televisão e escrita, o que ainda falta conquistar?

Há sempre coisas para conquistar. Quero continuar a escrever, atuar, desenvolver projetos e encontrar espaços onde possa experimentar. Mais do que chegar a determinado lugar, interessa-me continuar a construir um percurso que faça sentido para mim e que possa abrir portas para outras pessoas.

Assista a entrevista com o ator:

jordan@revistaentrerios.pt