CHICO SILVA

Ascensor para o cadafalso*

Da quase condenada Chapecoense ao Botafogo, dez times entram na reta decisiva do Brasileirão brigando para não amanhecer na Série B em 2027

Setembro 1, 2026

Neymar em ação na vitória do seu ameaçado Santos no clássico contra o Corinthians. Crédito: @RaulBaretta_Photo / Santos FC
Neymar em ação na vitória do seu ameaçado Santos no clássico contra o Corinthians. Crédito: @RaulBaretta_Photo / Santos FC

“O brasileiro não gosta de esporte. Ele gosta de ganhar”. Essa é uma máxima inquestionável. E vale para futebol, F1, vôlei, pôquer ou cuspe à distância. Mas, se não ganhar é ruim, ser rebaixado é pior ainda. Enquanto, na parte de cima da tabela, Palmeiras e Flamengo se consolidaram como os bichos-papões de títulos, revezando com um ou outro desafiante, é no chamado Z4 que o bicho pega mesmo, com times dos mais variados tamanhos e grandezas na briga para não cair. E este ano não tem sido diferente. Faltando 13 rodadas para o fim do campeonato, nada menos do que 10 clubes, 50% dos participantes do Brasileirão, se engalfinham para não virar 2027 na segunda divisão nacional.

De todos, a Chapecoense já pode praticamente começar a pensar na Série B. Com apenas 14 pontos, tem, segundo os matemáticos da UFMG, 99,15% de risco de queda. Já caiu duas vezes, em 2019 e 2021, e somente um milagre evitará a terceira. Sobram, portanto, três vagas no elevador para o inferno. E há muita gente tentando não entrar nele.

O Remo, com 23 pontos, aparece com 64,7% de risco. O percentual ainda pode mudar nesta segunda-feira, já que o Leão de Belém recebe o Coritiba no Mangueirão, no jogo que fecha a rodada. De volta à elite depois de 32 anos, tenta se manter na divisão que não disputava desde 1994.

Logo atrás aparece um gigante em apuros. Campeão mundial e duas vezes da Libertadores, o Internacional tem 25 pontos e 60,2% de risco de disputar a Série B pela segunda vez em sua história. A primeira foi em 2016. O momento preocupa ainda mais: o Colorado não vence no Brasileiro desde maio e já disputou mais partidas que alguns concorrentes diretos. O próximo duelo pode ser decisivo para o futuro do Colorado. O time enfrenta o Santos, outro candidato direto ao rebaixamento, no Beira-Rio.

O Vasco respirou com a vitória sobre o Cruzeiro e chegou também aos 25 pontos, reduzindo para 49,2% a probabilidade de queda. Dos grandes envolvidos nessa disputa inglória, o Cruzmaltino é o que mais vezes foi rebaixado — 2008, 2013, 2015 e 2020 — e tenta desesperadamente evitar um penta que ninguém quer ganhar.

Também com 25 pontos, o emergente Mirassol tem 43,4% de risco. Estreante na Série A, talvez tenha a seu favor justamente aquilo que falta aos gigantes ao redor: não carrega nas costas o peso de uma torcida assombrada pelos fantasmas do passado. A eliminação recente na Libertadores aliviou seu calendário e pode ajudá-lo na luta contra a degola.

O Grêmio conseguiu um alívio mais do que imediato. A vitória sobre a Chapecoense levou o time aos 28 pontos e derrubou o risco para 24,2%. Rebaixado em 2004 e 2021, o Tricolor ainda está perto demais da confusão, mas começa a enxergar alguma distância do abismo.

Um pouco acima, Vitória e Santos têm 29 pontos e praticamente o mesmo risco: 17,8% para os baianos e 17,7% para os paulistas. O Vitória conhece bem o sobe e desce entre as divisões. O Santos, que durante mais de um século se orgulhou de jamais ter caído, descobriu em 2023 que camisa, títulos e história não funcionam como colete salva-vidas.

Nossa linha de corte termina nos 30 pontos. O São Paulo, com 8,6% de risco, e o Botafogo, com 8%, ainda estão a uma certa distância do desespero, mas não o suficiente para ignorar o retrovisor. Ao lado do Flamengo, o Tricolor é o único dos gigantes do futebol brasileiro que não visitou o inferno da Série B. E assim quer continuar. O Botafogo coleciona três rebaixamentos. Mas ambos sabem que duas ou três derrotas consecutivas podem mudar completamente a paisagem.

Com passagens por quatro times envolvidos nessa briga — São Paulo, Botafogo, Vitória e Chapecoense —, o técnico Nei Franco ganhou fama extra fora dos campos por ser um dos compositores e intérpretes de Tava na Beira do Caos. O refrão diz: “Tava na beira do caos/tava na beira do mal/numa piração total”. Com certeza, essa música está censurada nos vestiários dos dez candidatos à degola no Brasileirão 2026.

*Título de um clássico do cinema francês de 1958 com direção de Louis Malle, estrelado por Jeanne Moureau e trilha sonora assinada por Milles Davies.

Chico Silva. Foto: Divulgação