Vivemos em uma era em que quase tudo que sai um pouco do normal vira “épico” ou “histórico”. O mundo das redes sociais banalizou e normalizou termos que antes eram usados com parcimônia para classificar fatos que de fato mereciam ser tratados como tal. Mas, de vez em quando, ainda acontece algo que devolve às palavras o seu real significado. A vitória do jovem italiano Kimi Antonelli, domingo, no lendário circuito de Monza, é uma delas.
Aos 20 anos recém-completados, correndo em casa, o bolonhês da Mercedes largou em 19º e terminou em primeiro. Na história da categoria, apenas o inglês John Watson, no longínquo GP de Long Beach de 1983, nos Estados Unidos, venceu partindo mais atrás do que Antonelli. Naquela corrida, o piloto da McLaren largou da 22ª posição para ser o primeiro a receber a bandeirada final no circuito da costa oeste americana.
Antonelli passou literalmente o carro em todo o pelotão e, a três voltas do fim, superou o companheiro George Russell para vencer diante de uma Monza em delírio, algo raríssimo para um piloto que não veste o macacão rosso da Ferrari, a paixão de onze entre dez italianos. De quebra, encerrou um jejum de 60 anos: desde Ludovico Scarfiotti, em 1966, um italiano não vencia na pista da Velha Bota.
Monza foi apenas o ponto mais alto de uma temporada até aqui impressionante. Foi a sétima vitória de Antonelli em 13 GPs neste ano. O ragazzo prodigio tem ainda 11 pódios e seis poles e lidera o Mundial com 267 pontos, 66 à frente de Russell. E estamos falando de um piloto que mal completou a idade para tirar a CNH e está em seu segundo ano na Fórmula 1.
É inevitável, portanto, olhar para trás e perguntar: quem, nessa idade, fez algo parecido?
Max Verstappen fez. Aos 18 anos e 228 dias, venceu o GP da Espanha de 2016 e tornou-se o mais jovem vencedor da história da F1. Aos 20, a atual idade de Antonelli, porém, ainda não brigava pelo título. Seu primeiro Mundial só viria aos 24, em 2021.
Sebastian Vettel é a referência que Antonelli persegue agora. Venceu pela primeira vez aos 21 anos e, em 2010, aos 23 anos e 134 dias, tornou-se o campeão mundial mais jovem da história. O recorde já dura 16 anos — e pode estar com os dias contados.
Lewis Hamilton chegou mais velho à categoria, mas talvez tenha produzido a estreia mais comparável. Aos 22 anos, em 2007, venceu quatro provas e perdeu o campeonato para o finlandês Kimi Räikkönen por um único ponto. No ano seguinte, aos 23, foi campeão. Fernando Alonso tinha 24 quando conquistou seu primeiro título.
Antonelli, portanto, não é o mais jovem a vencer uma corrida nem o primeiro prodígio que a Fórmula 1 conheceu. Mas liderar um Mundial aos 20 anos, com mais da metade da temporada já disputada, coloca o italiano num território que nem Verstappen, Hamilton, Vettel ou Alonso ocuparam nessa idade.
E há um componente que torna essa história ainda maior. A Itália, país da Ferrari, de Monza, dos tifosi e de uma relação quase religiosa com o automobilismo, não tem um campeão mundial de Fórmula 1 desde o século passado, com Alberto Ascari, vencedor em 1952 e 1953. São 73 anos de espera.
Antonelli já acabou com um jejum italiano neste domingo. Pode acabar com outro dentro de alguns meses.
Ainda restam dez corridas e, em Fórmula 1, 66 pontos estão longe de significar título garantido. Mas talvez o mais assustador para os adversários seja lembrar que Kimi Antonelli completou 20 anos no último dia 25 de agosto.
O garoto mal saiu da adolescência. Mas parece estar fazendo os adversários envelhecerem rápido demais.