Esporte

Não é só futebol

Ao barrar a entrada de Lubumba Vea, os Estados Unidos impediram que um dos maiores símbolos da torcida congolesa acompanhasse a histórica campanha de sua seleção na Copa do Mundo

Junho 29, 2026

Lubumba Vea. Crédito: Reprodução Instagram Bleachrreport
Lubumba Vea. Crédito: Reprodução Instagram Bleachrreport

Nem todo torcedor vai ao estádio apenas para ver um jogo, uma seleção ou um craque como Messi ou Cristiano Ronaldo. O congolês Michel Kuka Mboladinga atravessa continentes para reverenciar uma lenda. Trajado como Patrice Lumumba, líder da independência da República Democrática do Congo e um dos maiores símbolos da luta anticolonial na África, ele passa os 90 minutos de cada partida de sua seleção completamente imóvel, reproduzindo a pose da estátua erguida em homenagem ao homem que ajudou a mudar a história de seu país.

Ele se apresenta como Lumumba VeaLumumba vive. Mais de sessenta anos após o assassinato do líder congolês, assassinado por soldados congoleses sob o olhar de oficiais belgas, reinado que por décadas ocupou o Colgo, Michel mantém vivo um legado que atravessa gerações.

Sua imagem imóvel na arquibancada impressiona, impacta e assusta. Lubumba Vea é um homem negro e africano que atravessa fronteiras para manter viva a memória da luta anticolonial e denunciar, com a própria presença, um dos capítulos mais brutais da história da África. E pelo jeito segue assustando, tanto que o governo Trump, com a complacência da Fifa, impediu sua entrada nos Estados Unidos para acompanhar os jogos de sua seleção.

Com isso, ele não pôde assistir à estreia dos Leopardos contra Portugal, em Houston, nem à histórica vitória sobre o Uzbequistão, em Atlanta, resultado que garantiu a inédita classificação congolesa para a segunda fase do Mundial. Tampouco poderá ver o confronto contra a Inglaterra, também em Atlanta. Nesta Copa, sua presença imponente foi vista apenas na partida contra a Colômbia, disputada em Guadalajara, no México.

Lumumba Vea não ganhou fama porque canta mais alto ou lidera uma torcida organizada. Tornou-se um fenômeno justamente pelo inverso. Enquanto milhares de pessoas pulam, dançam e gritam nas arquibancadas, ele permanece imóvel durante os 90 minutos, como um monumento vivo. Não faz isso por excentricidade. Faz porque entende que vestir as cores do Congo também significa preservar a memória de Patrice Lumumba e de tudo o que ele representa para seu povo.

Ele não é apenas um torcedor. É um símbolo vivo da luta dos povos africanos por liberdade e reparação histórica. Enquanto muitos veem apenas um homem parado, os congoleses — e boa parte da África — enxergam nele um lembrete permanente de que sua seleção representa um país cuja história foi marcada pela exploração colonial e pela violência. Estima-se que, durante o reinado de Leopoldo II, mais de dez milhões de congoleses tenham sido assassinados, uma das páginas mais brutais da história do colonialismo europeu.

E justamente quando o Congo vive seu momento mais importante em apenas sua segunda participação em Copas do Mundo – a primeira foi em 1974, quando o país ainda se chamava Zaire – seu torcedor mais emblemático foi barrado pela imigração americana.

Michel Kuka Mboladinga talvez seja o maior exemplo de que uma Copa do Mundo nunca é só futebol. Ao vestir o terno, os óculos e a postura de Patrice Lumumba, ele não está apenas apoiando uma seleção. Está lembrando ao mundo que o legado do líder congolês continua vivo. E talvez seja justamente por isso que sua ausência pese tanto. Porque algumas pessoas não ocupam apenas um lugar na arquibancada. Elas representam uma nação inteira. Lubumba Vea não é um mero torcedor. É uma ideia. E ideias não morrem!

Chico Silva. Foto: Divulgação