O Brasil é penta. E daí?
Tal proeza foi construída por gerações bem mais talentosas que a atual
- Brasil
Julho 2, 2026
Quando o alemão Jonathan Tah mandou pelos ares a cobrança de pênalti, e o paraguaio Jose Canale acertou a sua, com perfeição, após empate em 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação, o Brasil prolongava por pelo menos mais quatro anos o prazo de validade do maior orgulho da nação de chuteiras. Adeus, alemães, e, pronto, ninguém mais poderia tirar da seleção brasileira, até a Copa do Mundo de 2030, o cobiçado título de única pentacampeã do planeta. Um troféu moldado com suor e talento por alguns dos protagonistas raros da melhor linhagem de que se teve notícia na história do futebol: Pelé, Didi, Garrincha, Romário e Ronaldo Fenômeno.
A Alemanha era a única participante entre as 48 da atual Copa que poderia igualar o penta brasileiro. A outra tetracampeã do mundo, a Itália, ficou fora desta edição, barrada no baile nas eliminatórias europeias. Sendo assim, os títulos mundiais conquistados pelo Brasil em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 continuam em uma prateleira alta, inacessíveis e reluzentes.
E daí? Quem vive de passado é museu, dirão os invejosos. Mas tão certo quanto o ditado é o peito inflado do povo brasileiro quando cutucado pelo torcedor estrangeiro de alguma seleção favorita. O problema é que essa supremacia histórica é defendida também pelos próprios atletas, como Matheus Cunha, que mesmo sem ter jogado grande coisa na virada sobre o Japão, na primeira partida do mata-mata, foi veemente na provocação aos adversários inconsoláveis, logo após o fim da partida: “Ganhamos cinco. Respeita”, disse, em inglês, mostrando, raivoso, os cinco dedos da mão direita.
A afronta é boa, não resta dúvida. Mas convém deixá-la como munição e argumento exclusivamente para o torcedor, consumidor contumaz até das mais improváveis ilusões. Deitar sobre a fama construída por gerações mais talentosas nada vai acrescentar a essa herança do penta que, embora valorizada, pode ruir um dia, como qualquer patrimônio mal administrado.
Dos que estão aí, Vinicius Junior abre uma distância de talento absurda sobre os companheiros, já ameaçando reservar qualquer dia um lugar para seu nome em alguma prateleira próxima à dos craques citados no início desse texto. Joga muito. E os jovens Endrick e Rayan são o investimento de baixo risco para uma rentabilidade alta nas próximas quatro Copas do Mundo. No fim, todo mundo pode lucrar, mas a soberba, é bom que se saiba, costuma ser indicador de acomodação, tragédia e retrocesso.