Sem defesa
Junho 16, 2026
Durante décadas, o futebol brasileiro vendeu ao mundo a imagem do talento ofensivo. Pelé, Garrincha, Tostão, Jairzinho, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho. A história da Seleção foi contada pelos seus artistas. Mas existe uma meia verdade nessa narrativa. As grandes equipes brasileiras nunca foram apenas times que atacavam bem, eram seleções que defendiam com eficiência e competência.
Mas a estreia contra o Marrocos deixou a torcida com a pulga atrás da orelha. Sabia-se que não seria uma partida fácil. Mas não se imaginava uma atuação tão instável e preocupante.
O empate por 1 a 1, por si só, não compromete a classificação nem transforma a campanha em fracasso. Copas do Mundo são longas e frequentemente começam de maneira menos brilhante do que seus torcedores gostariam. O problema é que o jogo confirmou uma tendência que já vinha sendo observada antes de a bola rolar em Nova Jersey.
Desde 2019, a Seleção Brasileira não sofria gols em seis partidas consecutivas. O dado pode parecer apenas uma curiosidade estatística, mas diz muito sobre o momento da equipe. Em um torneio de tiro curto, a capacidade de evitar gols costuma ser tão importante quanto a de marcá-los.
Contra Marrocos, o Brasil voltou a transmitir uma sensação desconfortável de instabilidade. Não foi dominado. Não foi atropelado. Mas não teve o controle do jogo em momento algum da partida. E se a justiça fosse feita, os marroquinos deveriam ter saído do Metlife Stadium como vencedores.
E olha que o Marrocos não apresentou nenhuma surpresa tática. Trata-se de uma seleção organizada, competitiva e respeitável, mas com características conhecidas há anos. Ainda assim, encontrou espaços, criou dificuldades e expôs problemas que a comissão técnica ainda não conseguiu resolver. Especialmente no setor defensivo. O Marrocos não criou um problema novo. Apenas revelou um que já existia.
O Brasil apresenta deficiências crônicas no setor. Especialmente nas laterais, posição que há tempos se tornou uma encrenca agravada nesta Copa com a lesão de Eder Militão e o corte de Wesley às vésperas do início da competição. O histórico dos Mundiais mostra que esse descompasso costuma ser uma combinação perigosa.
Em 1958 e 1962, o Brasil tinha Pelé e Garrincha. Mas também contava com Bellini, Mauro, Zito e Nilton Santos. Em 1970, o brilho ofensivo de Jairzinho, Tostão e Pelé era acompanhado pela liderança de Carlos Alberto Torres e pela consistência defensiva de Piazza. Em 1994, a Seleção conquistou o Tetra com uma defesa quase intransponível, com Aldair e Márcio Santos no comando da zaga. Em 2002, a lembrança mais forte é o talento de Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho, mas o Penta também passou pelos pés de Lúcio, Edmílson e Roque Júnior.
O Brasil sempre foi lembrado pelos artistas. Mas quase todas as suas Copas foram ganhas pelos operários. Talvez seja justamente isso que esteja faltando à equipe atual.
A boa notícia é que ainda há tempo para corrigir a rota. A fase de grupos permite ajustes e a qualidade individual do elenco continua entre as maiores da competição.
A má notícia é que Copa do Mundo raramente perdoa defesas instáveis. O ataque brasileiro ainda é capaz de ganhar partidas. Principalmente se Ancelotti se render ao talento de Endrick, que a cada jogo tem seu nome mais pedido pela torcida. A dúvida é se a defesa será capaz de ajudar a trazer o Hexa.