Além de Brasil e Portugal, há uma seleção nesta Copa do Mundo que tem a torcida dos quase 270 milhões de lusofalantes espalhados pelo planeta. Ela não veste amarelo. Nem vermelho e verde. Veste azul. Cabo Verde chega à última rodada da fase de grupos com a chance de se tornar a terceira seleção de um país de língua portuguesa a se classificar para a segunda fase de uma Copa do Mundo.
O universo lusófono reúne nove países em quatro continentes. É uma das maiores comunidades linguísticas do planeta. Ainda assim, quando o assunto é Copa do Mundo, essa presença sempre foi surpreendentemente restrita.
Apenas quatro nações de língua portuguesa já disputaram o maior e mais tradicional torneio de seleções do mundo: Brasil, Portugal, Angola e, agora, Cabo Verde. Destas, somente Brasil e Portugal avançaram de fase. Angola teve sua chance em 2006. Fez campanha digna, empatou com México e Irã, perdeu apenas para Portugal, mas ficou pelo caminho.
Os Tubarões Azuis tentam, agora, ultrapassar essa barreira histórica. E pode estar a um empate disso. Se somar um ponto contra a Arábia Saudita e o Uruguai perder para a Espanha, haverá uma festa jamais vista no arquipélago africano que deu ao mundo talentos musicais como Cesária Évora. Mas, mesmo que isso não aconteça e a seleção seja eliminada, a campanha cabo-verdiana já se tornou uma das melhores histórias desta Copa. Na estreia, segurou um empate sem gols contra a Espanha, uma das favoritas ao título. Depois, voltou a mostrar força ao empatar por 2 a 2 com o Uruguai, bicampeão mundial e uma das seleções mais tradicionais do futebol.
O principal personagem da jornada cabo-verdiana na América do Norte defende uma posição um tanto inglória no futebol. Aos 40 anos, o goleiro Vozinha virou o maior símbolo de Cabo Verde na Copa. Veterano, líder e capitão, ele representa bem a dimensão improvável da história: uma seleção estreante, de um pequeno arquipélago africano, conduzida por um jogador que desafia o tempo e ajuda sua nação a encarar times maiores e mais tradicionais.
Outro fato curioso para os brasileiros está em seu nome. Na certidão de nascimento, Vozinha se chama Josimar, uma homenagem do pai ao lateral-direito que fez sucesso pela Seleção Brasileira na Copa do México, em 1986. O apelido vem do carinho que ele tinha pela avó na infância.
Vozinha se tornou também o maior fenômeno digital do evento. Durante a partida contra a Espanha, o comentarista e streamer Casimiro Miguel lançou em seu canal no YouTube, a CazéTV, outro fenômeno desta Copa, uma campanha para aumentar o número de seguidores do goleiro no Instagram. Foi como fogo no feno. Em poucas horas, sua página passou de 50 mil para quase 10 milhões de inscritos. No momento do fechamento deste texto, contava com 15,4 milhões de seguidores.
Mas a força dos Tubarões Azuis não está apenas em Vozinha. Está no conjunto, na organização e na coragem de competir sem medo contra gigantes do futebol mundial. Copa do Mundo também vive dessas histórias. Camarões em 1990, Senegal em 2002, Gana em 2010 e Marrocos em 2022 deixaram de representar apenas seus países e passaram a ocupar o imaginário de torcedores espalhados pelo mundo. Cabo Verde pode estar entrando nesse lugar.
Para nós, que carregamos o português como idioma, há algo de especial nessa possibilidade. A língua que une povos tão diferentes raramente aparece como uma comunidade dentro do futebol. Brasil e Portugal quase sempre ocupam sozinhos esse espaço. Nesta Copa, Cabo Verde lembra que a lusofonia pode ser maior do que seus dois protagonistas habituais.
Se a classificação vier, o feito será de Cabo Verde. Mas a torcida pode ser de todos nós. Porque, nesta Copa, somos todos Cabo Verde.